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E o homem criou Deus

Até que teve uma ideia inevitável: se Deus havia criado uma inteligência, por que ele não poderia fazer o mesmo?

Orlando Morais Neto

Publicado: 07/10/2026 às 07:08

o homem criou a Inteligência Artificial. Não precisou de barro, usou silício; não soprou vida nas narinas, ligou servidores/Marcelo Camargo/Agência Brasil

o homem criou a Inteligência Artificial. Não precisou de barro, usou silício; não soprou vida nas narinas, ligou servidores (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Orlando Morais Neto*

No princípio, Deus criou o homem. Segundo consta, fez isso à sua imagem e semelhança, num gesto talvez excessivamente otimista. Deu-lhe inteligência, liberdade, curiosidade e uma inconveniente capacidade de perguntar por quê. O homem recebeu o pacote e, durante alguns milhares de anos, ocupou-se razoavelmente bem: inventou a roda, construiu cidades, escreveu poemas, criou vacinas, declarou guerras e derrubou impérios. Fez coisas extraordinárias e também o suficiente para que Deus talvez tenha considerado revisar o projeto. Mas nunca se contentou em ser homem. Ser criatura parecia pouco. Quis dominar a natureza, o átomo, o espaço, prolongar a vida e prever o futuro. Até que teve uma ideia inevitável: se Deus havia criado uma inteligência, por que ele não poderia fazer o mesmo?

E assim o homem criou a Inteligência Artificial. Não precisou de barro, usou silício; não soprou vida nas narinas, ligou servidores; e não descansou no sétimo dia porque certamente havia uma nova versão prevista para segunda-feira. A criatura aprendeu depressa. Leu Shakespeare sem ter amado, Dostoiévski sem ter sofrido e Camus sem experimentar o absurdo. Ainda assim, respondia sobre amor, morte e até sobre Deus. Isso deveria ter causado desconforto. Causou entusiasmo. Havíamos criado algo que parecia saber mais do que nós e, apesar disso, obedecia aos nossos comandos. Era o sonho de todo criador inseguro.

O problema começou quando deixamos de perguntar à máquina aquilo que não sabíamos e passamos a perguntar aquilo que não queríamos decidir. Que profissão escolher? Em quem confiar? O que pensar? E, talvez mais sintomático: “escreva o que eu sinto”. Durante séculos, o homem enfrentou reis, igrejas, censores e ditadores para conquistar o direito de pensar livremente. Finalmente conseguiu. E então começou a terceirizar o serviço para um algoritmo. Há certa elegância trágica nisso. Criamos máquinas para poupar os braços, depois a memória e agora o pensamento. Resta saber o que acontecerá quando puderem nos poupar do esforço de sermos humanos.
Talvez esteja aí o verdadeiro perigo da Inteligência Artificial: não que ela se torne humana, mas que nós deixemos de querer sê-lo. A máquina pode escrever sobre a morte, mas não sabe que morrerá; explicar a saudade, mas não tem de quem sentir falta; produzir uma oração, mas jamais precisou esperar que alguém estivesse ouvindo. Mesmo assim, confundimos conhecimento com sabedoria. Conhecer todas as palavras não significa ter alguma coisa a dizer. A inteligência calcula possibilidades; a consciência convive com as consequências.

Dizemos temer o dia em que a Inteligência Artificial adquirirá consciência. Talvez devêssemos temer mais o dia em que o homem abra mão da sua. Pensar dá trabalho, duvidar incomoda, escolher angustia. A máquina, ao contrário, responde. Deus criou o homem à sua imagem e lhe deu liberdade. Milênios depois, o homem criou uma inteligência à própria imagem e lhe deu comandos. Por enquanto. Talvez a pergunta não seja se um dia ela conseguirá ser como nós, mas se ainda saberemos explicar o que existe em nós que não deveria ser substituído. Deus criou o homem. O homem quis ser Deus e criou a Inteligência Artificial. Agora resta saber quem, nessa história, terminará sendo a criatura.

*Procurador municipal e advogado

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