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E não terminou ainda

Margarida Verçosa era irmã da minha avó materna, tecnicamente minha tia-avó, mas, para mim, sempre foi simplesmente vovó

Diario de Pernambuco

Publicado: 22/09/2026 às 07:48

Infância/Freepik

Infância (Freepik)

Vovó, a senhora merecia um livro inteiro. Talvez mais de um: um para agradecer tudo o que fez por mim, outro para contar nossas histórias e talvez um terceiro para explicar algo que, depois de tantos anos, ainda não compreendo: como alguém pode partir e continuar tão presente.

Margarida Verçosa era irmã da minha avó materna, tecnicamente minha tia-avó, mas, para mim, sempre foi simplesmente vovó. Minha mãe, ainda bebê, veio do Recife passar férias em Vitória de Santo Antão e acabou criada pela senhora. Quando nasci, meus pais trabalhavam muito, e a senhora ajudou a me criar também. Nas minhas primeiras lembranças, quase não distinguia onde terminava a casa dos meus pais e começava a sua. As duas eram minha casa.

Minha infância está espalhada por aquela casa e pelas ruas ao redor: pipas, Carnaval, São João, Festa de Nossa Senhora do Livramento, passarinhos, cachorros e campeonatos de futebol de botão. Lembro das idas ao Recife para comprar botões de chifre perto do Cinema Art-Palácio. Eu pensava que íamos apenas comprar botões; hoje percebo que a senhora me dava uma dessas pequenas felicidades cujo valor a infância só compreende depois.

Vieram os veraneios em Candeias, a adolescência, a faculdade e também as reprimendas. Numa madrugada, eu e minha irmã Ana chegamos tarde de uma festa e entramos na ponta dos pés, certos de que a senhora dormia. De repente, o rádio foi ligado. Sem dizer uma palavra, a senhora aumentou o volume e esperou o locutor anunciar: “São duas e meia”. Depois desligou. Estava encerrado o julgamento, sem recurso. Durante anos contei essa história como uma divertida bronca de avó; só depois compreendi que a senhora estava acordada esperando que chegássemos. O rádio não era fiscalização. Era amor disfarçado de fiscalização.

A senhora me esperava para almoçar quando eu voltava da faculdade, guardava meu lugar à mesa e me ensinou a acreditar em Deus, fazer o bem, ajudar as pessoas e perdoar — esta última uma lição que ainda tento aprender. Aos dezesseis anos, deu-me a única casa que possuía. Décadas depois, transformei-a no Empresarial Margarida Verçosa, onde mantenho escritório. Não poderia ter outro nome.

Então veio a esclerose lateral amiotrófica e a notícia de que não havia cura. A senhora morreu aos 71 anos. Eu tinha 27 e, naquele momento, o advogado voltou a ser apenas o menino que um dia uma enfermeira colocara em seus braços. Só depois percebi que a senhora passara a vida me preparando não para viver sem a senhora — isso seria impossível —, mas para continuar vivendo segundo aquilo em que acreditava.

Trinta anos se passaram. Tentei escrever sobre a senhora muitas vezes, mas as lágrimas interrompiam o texto. A saudade não passa; a gente é que aprende a continuar com ela. Hoje a encontro numa compoteira de vidro, nos botões que ainda guardo, em Candeias, naquele rádio ligado às duas e meia e no escritório que leva seu nome. Está também na fé que procuro conservar, nas pessoas que tento ajudar e no perdão que ainda tento aprender.

A senhora queria que aquele menino fosse um grande homem. Ainda tento, vovó. Ainda tento. Demorei muitos anos para compreender: era amor. Tudo era amor. E, para a senhora, todo o amor do mundo ainda é pouco. Falar da senhora é falar de um amor que começou em 13 de fevereiro de 1969 e não terminou ainda.

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