A Natureza também tem direitos
Enchentes, secas, ondas de calor, deslizamentos, incêndios e a perda acelerada da biodiversidade revelam que não estamos diante de problemas isolados, mas de uma crise civilizatória que questiona a própria forma como nos relacionamos com a vida
Publicado: 15/09/2026 às 07:54
Esta fotografia mostra o fogo consumindo a vegetação rasteira durante um incêndio florestal na Floresta de Fontainebleau, em Achères-la-Forêt, na região de Île-de-France (arredores de Paris), em 13 de julho de 2026. ( AFP)
Por Luiz Felipe Lacerda*
Vivemos um tempo em que a crise ambiental deixou de ser uma previsão para se tornar experiência cotidiana. Enchentes, secas, ondas de calor, deslizamentos, incêndios e a perda acelerada da biodiversidade revelam que não estamos diante de problemas isolados, mas de uma crise civilizatória que questiona a própria forma como nos relacionamos com a vida.
Diante desse cenário, uma pergunta se torna inevitável: e se precisarmos mudar não apenas nossas políticas ambientais, mas a maneira como compreendemos a natureza?
É nesse contexto que ganha força o debate sobre os Direitos da Natureza. A proposta representa uma mudança profunda: reconhecer rios, florestas e ecossistemas não apenas como recursos a serem protegidos em benefício dos seres humanos, mas como sujeitos que possuem valor próprio e merecem proteção jurídica e política.
Essa mudança não é apenas conceitual. Ela tem consequências concretas para a maneira como pensamos o desenvolvimento, planejamos nossas cidades, ocupamos os territórios e formulamos políticas públicas.
Durante séculos, construímos uma relação marcada pela ideia de domínio. A floresta foi transformada em madeira; o rio, em fonte de energia ou abastecimento; a terra, em mercadoria. Ao reduzir a natureza àquilo que ela pode oferecer, esquecemos uma verdade elementar: somos parte dela e dependemos de suas condições para existir.
Os povos indígenas e as comunidades tradicionais nos lembram disso há séculos. Seus modos de vida desafiam a separação entre humanidade e natureza. O território não é apenas espaço físico: é memória, identidade, espiritualidade, cultura e condição de existência.
Por isso, falar em Direitos da Natureza é também falar em direitos humanos. Os efeitos da crise climática não atingem todos da mesma maneira. As populações mais vulneráveis, em geral, vivem em áreas de maior risco e têm menos recursos para enfrentar eventos extremos.
Não existe justiça climática sem justiça social.
É essa compreensão que estará no centro da XIII Semana Socioambiental da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), que, de 15 a 18 de setembro, realizará o I Seminário Nacional de Educação Popular, Educação Ambiental, Direitos Humanos e Direitos da Natureza.
O encontro reunirá pesquisadores, estudantes, gestores públicos, lideranças indígenas e comunitárias, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. Mais do que um evento acadêmico, será um espaço de diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
Justiça climática, direitos da natureza, desastres socioambientais, gestão das águas, cidades resilientes, saúde mental, democracia, economia solidária, espiritualidade ecológica e defesa dos territórios são temas que fazem parte de uma mesma realidade.
Essa perspectiva dialoga diretamente com o conceito de Ecologia Integral, presente na encíclica Laudato Si’, do papa Francisco. Não há duas crises separadas — uma ambiental e outra social. Há uma única crise socioambiental, que exige respostas igualmente integradas.
Precisamos superar a falsa oposição entre desenvolvimento e preservação. Uma economia que destrói as bases naturais de que depende não é sustentável. Uma cidade que cresce expulsando populações para áreas de risco não é resiliente. Uma política ambiental que ignora desigualdades sociais não produz justiça.
A universidade tem papel fundamental nesse processo. Não basta produzir conhecimento sobre a crise. É preciso criar espaços para que a ciência dialogue com os saberes tradicionais e com aqueles que vivem cotidianamente as consequências da degradação ambiental.
Talvez a pergunta mais importante não seja se a natureza pode ter direitos. Talvez seja outra: que tipo de sociedade somos capazes de construir quando reconhecemos que a natureza não é algo separado de nós?
Reconhecer os Direitos da Natureza significa também reconhecer nossos próprios limites e responsabilidades.
A Casa Comum não é apenas o lugar onde vivemos. É a rede de relações que torna possível a vida.
Cuidar da natureza não é um gesto de generosidade para com o planeta. É uma questão de justiça — e, em última instância, de sobrevivência.
*Luiz Felipe Lacerda é Secretário executivo do Observatório Nacional de Justiça Socioambiental (OLMA) e coordenador da Cátedra Laudato Si’ (UNICAP).