José Soares Filho: um ícone
Sob forte comoção e imensurável pesar, na tarde do dia 22 de julho, as comunidades jurídica e acadêmica pernambucanas despediram-se abruptamente do ícone José Soares Filho
Publicado: 12/09/2026 às 10:29
José Soares Filho foi desembargador e um dos grandes expoentes do Direito do Trabalho no meio acadêmico. (Acervo pessoal)
Por Amaro Clementino Pessoa*
Sob forte comoção e imensurável pesar, na tarde do dia 22 de julho, as comunidades jurídica e acadêmica pernambucanas despediram-se abruptamente do ícone José Soares Filho — bravo matuto paraibano de Malta, que rompeu a escassez típica do sertão para lutar, vencer e reluzir no Judiciário, na ciência e na vida.
Ainda jovem, sentindo-se vocacionado para o sacerdócio cristão, tornou-se seminarista visando à futura ordenação sacerdotal. Esse plano, contudo, foi atravessado pelo brilho de Ângela, jovem paraibana da cidade de Areia que o fez “pensar direitinho” sobre a doutrina do celibato. O encontro o fez desistir do caminho romano sem jamais abdicar da fé cristã — porque esta, como diz o cancioneiro popular, “não costuma falhar”.
Recalculou a rota: ingressou no Banco do Brasil e, em seguida, no Judiciário Trabalhista. Deixou sua marca no TRT da 6ª Região como desembargador e, posteriormente, como um dos fundadores do TRT da 19ª Região (Alagoas), ocupando com honradez a vice-presidência da Corte e prezando, de forma titânica, pelos princípios constitucionais da administração pública.
Suas sentenças, acórdãos e despachos de expediente traziam elevado grau de cientificidade e fundamentos jurídicos, sempre no tom professoral que lhe era peculiar. Vaidade, arrogância, petulância e outras fraquezas comportamentais inerentes a alguns que vestem a toga passavam ao largo daquele magistrado da 5ª Vara do Trabalho. Ele colecionou múltiplas condecorações ao longo da trajetória, entre as quais se destacam a Medalha Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira (TRT6), a Ordem Ministro Silvério Fernandes de Araújo Jorge no grau Grã-Cruz (TRT19) e a Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho no grau de Oficial, conferida pelo Colendo Tribunal Superior do Trabalho (TST).
Se na magistratura sua trajetória foi pautada pela intrepidez e distinção, na vida acadêmica ele foi um verdadeiro dínamo: formou gerações de mestres, doutores, juízes, promotores e advogados. Desde cedo, caminhou de mãos dadas com o ensino. Professor de português de excelência, dominava o latim, o francês e o espanhol com maestria, além de ser profundo conhecedor da Revolução Francesa, tema sobre o qual publicou diversos artigos.
Intelectual fervoroso, concluiu o mestrado e o doutorado em Direito sob a orientação do jusfilósofo Everaldo Gaspar Lopes de Andrade na prestigiada Faculdade de Direito do Recife (FDR/UFPE), a "Casa de Tobias Barreto". Sua tese deu origem a obras clássicas e revolucionárias no campo do Direito do Trabalho, como A Proteção da Relação de Emprego (Ed. LTr), Elementos da Ordem Jurídica Internacional e Comunitária (Ed. Juruá) e Sociedade Pós-industrial e os Impactos da Globalização no Trabalho, Economia e no Estado (Ed. Juruá), entre outros títulos de relevância científica na construção do pensamento crítico do Direito do Trabalho moderno.
Como intelectual progressista e ativista dos Direitos Humanos, nunca se furtou à defesa dos princípios protetivos dos direitos sociais em confronto com o liberalismo econômico. Além de professor da graduação, do mestrado e do doutorado da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), da Escola Superior da Magistratura Trabalhista do TRT6 e da Pós-Graduação Lato Sensu da FDR, foi membro da Academia Pernambucana de Letras Jurídicas, da Academia Brasileira de Direito do Trabalho e membro-fundador da Academia Pernambucana de Direito do Trabalho e do Instituto Latinoamericano de Derecho del Trabajo y de Seguridad Social.
Atuou ainda como conferencista nacional e internacional, examinador de concursos para a magistratura e avaliador de teses e dissertações stricto sensu. O reconhecimento à sua obra culminou com a homenagem prestada por juristas na obra coletiva Processo do Trabalho e Evolução do Direito (Ed. Juruá).
Homem de vida ilibada, serena, de hábitos simples e firmada na rocha da ética, José Soares Filho nunca se deixou envaidecer por títulos ou status. Pelo contrário: apesar de reluzente, era avesso ao esnobismo acadêmico ou a qualquer forma de menosprezo ao próximo. Respeitava as diferenças, tolerava o contraditório e representava a antítese da sociedade líquida de Bauman.
Na tarde ensolarada de 22 de julho de 2026, ele partiu num piscar de olhos, sem sequer dar-me um abraço de despedida, deixando-nos um vazio profundo. Louvo a Deus por sua estada conosco — meu grande e verdadeiro amigo, parceiro de lutas e irmão em Cristo. Deixo o abraço sincero e afetuoso de quem muito o ama e estima.
* Amaro Clementino Pessoa é membro da Academia Pernambucana de Direito do Trabalho.