Meu adeus à FADO/AESO
Para mim, ver aquelas portas se fecharem não é apenas assistir ao fim de uma estrutura de concreto; é ver o fechamento de um templo onde depositei anos da minha vida
Publicado: 11/09/2026 às 09:42
UNIAESO (Aeso/Divulgação)
Por Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues
Olhar hoje para o icônico prédio de Jardim Brasil, agora em absoluto silêncio, provoca um aperto no peito que nenhuma teoria jurídica ou tese processual consegue explicar. O encerramento das atividades da UniAeso Olinda põe um ponto final físico em quase seis décadas de história. Para mim, ver aquelas portas se fecharem não é apenas assistir ao fim de uma estrutura de concreto; é ver o fechamento de um templo onde depositei anos da minha vida, da minha energia e da minha própria identidade como advogado e educador.
Fui, e sempre serei, profundamente apaixonado pela nossa tradicional Faculdade de Direito de Olinda (FADO). Ensinar Direito Empresarial e Processual Civil naquelas salas nunca foi um mero ofício ou um cumprimento de carga horária; era uma missão. Cada aula era um compromisso em ligar a teoria dura dos livros à realidade pulsante dos tribunais, provocando os estudantes a pensarem de forma estratégica, ética e humana.
Construímos ali uma verdadeira família acadêmica, e é impossível falar da grandeza dessa história sem louvar os gigantes que caminharam lado a lado comigo nessa trincheira. Que honra foi compartilhar os corredores e os ideais com o estimado Desembargador Ruy Patu, cuja brilhante trajetória e dedicação ao Direito Civil sempre foram faróis de lucidez e excelência para todos. O que dizer do querido amigo João Paulo Allain, mestre de uma profundidade intelectual ímpar, que com sua erudição na Teoria e no Direito Constitucional elevou o nível dos debates acadêmicos da nossa casa?
Minha reverência eterna ao estimado Ricardo Coelho, nosso decano e Procurador de Justiça, que celebrou décadas de magistério exclusivo naquela instituição, personificando o verdadeiro espírito do sacerdócio que é lecionar. E, claro, meu abraço fraterno ao estimado Professor João Armando, cuja dedicação diária, retidão e compromisso com o ambiente acadêmico foram fundamentais para fazer daquela faculdade um lugar acolhedor e dinâmico. Juntos, sob o legado do nosso eterno fundador, o professor Inácio de Barros Melo, e com a liderança firme da professora Izabella Barros Melo, formamos mais do que profissionais: formamos cidadãos.
Ver o esvaziamento gradual do campus nos últimos tempos, diante das mudanças implacáveis do mercado educacional, foi um processo doloroso. Ver as salas que antes fervilhavam de debates doutrinários minguarem foi uma lenta injustiça contra a nossa rica trajetória.
O martelo bateu e a decisão final foi irrecorrível: as portas de Jardim Brasil se fecharam, e a instituição segue novos rumos na capital. A mística de ver o Direito florescer no berço histórico de Olinda deixa uma lacuna eterna.
Podem trancar as salas, apagar os quadros e retirar o logotipo da fachada. O patrimônio imaterial que construí com meus alunos e colegas não aceita distrato nem rescisão. Ele permanece vivo em cada petição que meus ex-alunos assinam, em cada audiência que realizam e na minha memória eterna. Dei a vida por aquele chão acadêmico e fui imensamente feliz ali. A FADO/AESO fecha suas portas, mas o nosso legado é eterno.
Deixo uma pequena poesia para eternizar as memórias de um tempo que não acaba:
A última cátedra de Jardim Brasil
O martelo bateu, sem direito a recurso,
Silenciou-se o eco que havia em cada curso.
O prédio em Jardim Brasil, outrora tão vivo,
Guarda agora o silêncio de um adeus definitivo.
Mas quem viveu a FADO sabe bem o que restou:
A história não se apaga onde a alma lecionou.
O Direito Empresarial, o Processo em sua essência,
Não eram só matérias, eram atos de existência.
Ver o brilho nos olhos de quem ia começar,
E a beca invisível que passamos a envergar.
Subir as ladeiras, enfrentar a correnteza,
Fazer de cada sala um altar de realeza.
Que honra foi a minha, que orgulho no peito,
Caminhar com os gigantes que ergueram o Direito.