Clamor de Justiça por um Juiz veterano
Desembargador relata a luta da família por Justiça após grave complicação médica sofrida pela filha
Publicado: 22/08/2026 às 08:39
Juiz (Magnific (antigo Freepik))
Parece estranho que a um Juiz de 44 anos de atuação ininterrupta e sem nódoas possa vir a público clamar por Justiça.
Pois bem. Há um ano aguardamos Justiça pela tragédia médica da qual Camila Wanderley, minha filha, foi acometida, após submeter-se a uma cirurgia simples (vesícula e hérnia), eletiva, que se tornou grave pela má conduta profissional que a assistiu, a partir da transformação deliberada de um procedimento eletivo em urgente e da troca inopinada de profissional no momento do ato, que se revelou inteiramente desqualificada para atuar.
O ato cirúrgico foi iniciado quando Camila já estava em estado de sofrimento respiratório (apneia), provocado pelos vícios da entubação porcamente aplicada, e nunca checada, fato devidamente evidenciado pelos mapas do capinógrafo fornecidos pela Fabricante (GE) e que dissentiram abertamente dos prontuários subscritos pelo corpo de profissionais assistentes à ocasião. Um sequenciamento pavoroso de ações, omissões e descuidados causou na minha filha uma encefalopatia gravíssima que a fez vegetar até agora numa cama de hospital.
Camila chegou ao estabelecimento perfeitamente hígida e não tinha qualquer morbidade que a impedisse de operar, se tivessem sido observados os protocolos médicos previstos para aquela intervenção iniciada tardinheiramente. Desgraçadamente, tudo sugere que o móvel do procedimento foi, àquela altura dos acontecimentos, a fatura do serviço médico, não a saúde da paciente, que teve de sofrer a intervenção de qualquer jeito.
Sobre isto, sequer os procedimentos legais no âmbito administrativo têm sido devidamente observados. Quem provocou o desastre insiste em performar condutas que mais parecem socialmente dispostas a escarnecer do sofrimento de suas vítimas e das famílias agravadas do que responder pelos próprios malfeitos, de resto, toda a sociedade abespinhada e perplexa por tanta iniquidade impune, de tanto cinismo e de tanta cumplicidade.
Um país sem a devida assistência médica aos seus cidadãos, e sem as consequências típicas ao seu infracionamento, pode ser tudo, menos uma sociedade livre e disposta à correção. Estado sem lei (anomia) é bagunça na qual cada um se defende por si e o resto que se dane, segundo uma denominada lei do cão, infâmia que abominamos.
Que Deus nos ajude na recuperação de Camila (e Ele, sim, nos tem derramado graças sobremaneira ao rogo de Sua Mãe Santíssima, Nossa Senhora de Fátima, aos pés de Quem Camila se casou com Paulo Menezes em 2019) e na obtenção da Justiça inadiável para este leading case, que muito há de revelar sobre o meio em que convivemos e dele exigimos segurança, senão pela lógica da fraternidade humana, mas pelo fato de sermos contribuintes e termos direito à correção dos agires em sociedade.
Com efeito, a atividade profissional de saúde e os empreendimentos do setor nas áreas pública e privada não estão de fora desse espectro sombrio de nossa realidade. Ao contrário, por esse veio social corre muito dinheiro e este é o principal chamariz da cupidez humana, inclusive dos homens e mulheres de jaleco branco, os quais deveriam sobretudo priorizar a vida e a saúde dos que carecem de seus serviços e neles confiam cegamente. A traição aos pacientes indefesos é a maior de todas as ignomínias sociais na contemporaneidade, além da violação ao juramento de Hipócrates, tudo traduzindo-se em crimes mais graves do que os praticados por meliantes de rua.
Que todos e cada um nos encorajemos a manter sempre firme a luta por melhores dias para todos, a começar pela vigilância permanente e intimorata por uma Medicina que honre os seus profissionais e priorize efetivamente os pacientes.