O Teatro pede socorro!
Uma ferida aberta na Praça Osvaldo Cruz: a degradação do Teatro Valdemar de Oliveira
Publicado: 18/08/2026 às 08:18
Em ruínas, Teatro Valdemar de Oliveira vive o drama do abandono no Centro do Recife (Foto: Rafael Vieira/ DP)
Uma ferida aberta na Praça Osvaldo Cruz: a degradação do Teatro Valdemar de Oliveira. O Teatro é propriedade da sociedade Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), instituição sem fins lucrativos, com 85 anos, mantida por 22 sócios abnegados, que se manteve das suas produções, ocupando um lugar fundamental na história cultural de Pernambuco e do Brasil. Trata-se de um dos grupos teatrais de atuação contínua mais antigos do país e um dos principais responsáveis pela modernização do teatro pernambucano.
Durante décadas, o Teatro foi um dos principais palcos da produção cultural pernambucana, acolhendo espetáculos, cursos, ensaios e atividades de formação artística.
A situação atual do Teatro Valdemar de Oliveira é bastante preocupante. O espaço encerrou suas atividades nos últimos anos por contingencias que fugiram da normalidade: exigências (justas) do Corpo de Bombeiros que reduziram a pauta do Teatro e a redução de espectadores (cadeiras) na plateia, seguido do fechamento pela pandemia.
Não se teve mais fôlego para manter os custos mínimos e vigilância do prédio do Teatro, mesmo com o esforço e contribuição dos sócios, pessoas de classe média, para manter o prédio e seus equipamentos com o Teatro fechado. Aí passou a sofrer com invasões, furtos e deterioração estrutural. Em fevereiro de 2024, um incêndio atingiu o prédio, destruindo parte significativa de sua estrutura. Atualmente se encontra em estado avançado de degradação.
A intenção do TAP é doar o Teatro Valdemar de Oliveira a Prefeitura do Recife ou ao Governo do Estado para que recupere o Teatro e transforme em uma escola para formar profissionais de teatro em várias áreas, de atores a cenógrafos, iluminadores, etc.
O TAP foi fundado em 1941, no Recife, pelo médico, escritor, músico e teatrólogo pernambucano Valdemar de Oliveira, inicialmente denominado grupo Gente Nossa, organizado pelo teatrólogo Samuel Campelo.
A primeira montagem do TAP ocorreu em 4 de abril de 1941, com a peça “Knock ou O Triunfo da Medicina”, interpretada por médicos e suas esposas. Na época, a participação de mulheres no teatro ainda enfrentava preconceitos sociais, tornando a iniciativa bastante inovadora para a sociedade recifense.
Ao longo de mais de oito décadas, o TAP montou espetáculos; revelou atores, diretores e técnicos; promoveu a renovação estética do teatro pernambucano; realizou excursões por diversas cidades brasileiras; contribuiu para a profissionalização das artes cênicas em Pernambuco.
Entre os espetáculos de destaque estão: Vestido de Noiva, A Casa de Bernarda Alba, Um Sábado em 30, Nossa Cidade, entre centenas de produções. A montagem de Nossa Cidade, em 1949, dirigida por Ziembinski, tornou-se um marco do teatro pernambucano por introduzir soluções cênicas modernas no palco do Recife.
Em 1971, o TAP inaugurou sua própria sede, localizada na Praça Oswaldo Cruz, na Boa Vista, no Recife. Após a morte de Valdemar de Oliveira, em 1977, o espaço passou a se chamar Teatro Valdemar de Oliveira.
Seria muito injusto com Pernambuco todo esse trabalho e essa memória desaparecer.
Silvio Amorim é advogado. Faz parte da sociedade Teatro de Amadores de Pernambuco.