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Pianinho, Neymar

O povo quer Neymar. A grande massa quer. Reconhece nele uma chance concreta de hexa que nenhum outro jogador da geração atual se aproxima de oferecer

Delmiro Campos

Publicado: 12/05/2026 às 14:06

Neymar, atacante do Santos/Raul Baretta/ Santos FC

Neymar, atacante do Santos (Raul Baretta/ Santos FC)

Desde que postei uma crítica ao Neymar, o algoritmo não me deu sossego, mas me deixou confortável para gritar que ele precisa ser convocado para a Copa. E Ancelotti, ao não tratá-lo como convocação automática, parece ter assumido um compromisso silencioso, o de levar não o jogador feito de chiliques, mas o homem capaz de compreender o tamanho do lugar que ocupa.

A qualidade técnica do Neymar é indiscutível, até para quem não gosta dele. É o maior artilheiro da história da seleção. Somos nós, torcedores mal-acostumados pelas estrelas amarelas, que afinamos demais o crivo. A escola que o produziu não produz dois iguais por geração.

A questão, portanto, nunca esteve apenas no jogador. Esteve na postura. Na maturidade. Na capacidade de compreender que talento, por maior que seja, não suspende deveres mínimos com a camisa. E é aí que o julgamento apressado costuma escorregar, faltam nuance, calma, separação entre o atleta raro e o personagem que tantas vezes irritou o próprio público. Brigar com torcedor que xinga, reagir a jogador mais novo que valoriza uma disputa de bola, e ainda assumir, em certos momentos, postura de soberba como se estivesse acima do ambiente que o cerca. Tudo isso pesa.

O povo quer Neymar. A grande massa quer. Reconhece nele uma chance concreta de hexa que nenhum outro jogador da geração atual se aproxima de oferecer. E não é só o povo. Entre ex-campeões, entre técnicos de destaque, parece haver uma percepção majoritária de que não se despreza um jogador desse tamanho. Não apareceu, até aqui, alguém capaz de entregar exatamente o que ele entrega. Mesmo longe do auge físico, Neymar segue carregando uma capacidade de decisão que ninguém conseguiu substituir. As teses de que são poucos jogos, de que aguenta ou não a pressão, de que estaria emocionalmente pronto para aceitar ser coadjuvante quando tem condição plena de ser protagonista, ficam todas suspensas no ar como receios legítimos sobre o vestiário, sobre o banco, sobre a saúde mental dele para contribuir sem ser o centro. Receios reais, mas insuficientes para apagar o nome dele da lista.

Um amigo, me disse outro dia que terminou a biografia do Ancelotti convencido da convocação do Neymar. Que as não convocações foram propositais e pedagógicas. Que o italiano queria mandar um recado direto, do tipo vem, mas vem sabendo o teu lugar. E foi mais longe, ao dizer que no dia em que o nome for anunciado vai ter gritaria neste país.

O futebol exige grandeza para reconhecer o óbvio, Neymar, mesmo cercado de dúvidas, ainda é um jogador que muda o tamanho de uma seleção.

Convoca, Ancelotti. E rogo aqui ao Neymar, ainda que ele não leia uma só linha desse texto, que vá como dizemos por aqui, pianinho. Que cale a mim e a você, que sempre esperamos mais dele, ainda que ele talvez nem mereça essa cobrança por ser quem é do jeito que ele é, quem sabe, obstinado a levar essa taça. Se ele chegar pianinho, talvez essa seja a história mais bonita que o futebol brasileiro escreverá desde 2022.

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