Frei Gilson, a Palavra e o ruído dos tempos
Não sou católico romano. Sou cristão de tradição reformada episcopal. Talvez por isso minha defesa de Frei Gilson tenha peso adicional
Publicado: 05/05/2026 às 09:18
Show de Frei Gilson nos Estados Unidos. (Foto: Divulgação)
Não sou católico romano. Sou cristão de tradição reformada episcopal. Talvez por isso minha defesa de Frei Gilson tenha peso adicional: quando Cristo é o centro, diferenças denominacionais permanecem secundárias diante do essencial — submissão à Palavra, autoridade das Escrituras e senhorio de Jesus.
A controvérsia recente sobre Frei Gilson revela menos uma crise de interpretação bíblica e mais um choque entre cosmovisões: de um lado, a fé cristã histórica; de outro, a exigência moderna de que a Bíblia se curve ao espírito do tempo. Para quem se declara cristão, o parâmetro último não é sensibilidade cultural, aprovação social ou pressão política, mas revelação divina.
A tradição cristã histórica — católica, reformada ou ortodoxa — nunca tratou a Escritura como texto domesticável pela moda ideológica. A Bíblia confronta. Quando fala sobre sexualidade, família, pecado, santidade e ordem moral, não busca agradar tendências sociais, mas ordenar a vida sob criação, queda e redenção. Isso não autoriza crueldade, mas tampouco permite diluir doutrina para evitar controvérsia.
“Submissão”, talvez um dos termos mais distorcidos, em Efésios 5 não significa inferioridade, servidão ou ausência de dignidade. Refere-se a ordem funcional: marido chamado ao amor sacrificial; esposa à cooperação pactual; ambos iguais em dignidade diante de Deus. O texto começa com submissão mútua no temor de Cristo. O modelo bíblico não é tirania, mas responsabilidade e aliança. Reduzi-lo automaticamente à opressão é frequentemente ler a Bíblia por lentes ideológicas externas.
A crítica contemporânea muitas vezes exige que o cristianismo preserve sua estética — templos, ritos, símbolos — enquanto abandona sua ética. Isso não é reforma; é esvaziamento.
Quando Frei Gilson critica uma cultura incapaz de suportar frustração, toca num nervo exposto. A cultura de vitimização permanente, denunciada por pensadores como Thomas Sowell, frequentemente transforma desconforto em opressão estrutural e substitui responsabilidade por identidade performática. Em muitos excessos, a cultura woke não reconcilia; tribaliza.
Há também contradição civilizacional quando figuras públicas recorrem a símbolos cristãos — casamento religioso, linguagem moral, dignidade humana — enquanto desqualificam os fundamentos bíblicos que sustentam tais símbolos. Não se sustenta indefinidamente usufruir dos frutos de uma tradição enquanto se mina sua raiz.
Para o cristão, há ainda dimensão espiritual que o secularismo despreza. O conflito não é apenas político ou cultural, mas também moral e espiritual. Efésios 6:12 aponta para batalha além da carne e sangue. Isso não elimina responsabilidade humana nem transforma todo dissenso em ação demoníaca simplista, mas reconhece que a disputa por valores envolve mais que sociologia.
No Brasil, apesar da secularização, o cristianismo permanece força central. O Censo 2022 registra católicos como maioria proporcional (56,7%) e evangélicos em crescimento (26,9%). Globalmente, o cristianismo continua avançando inclusive sob perseguição. A fé cristã não é relíquia moribunda; permanece vigorosa.
Em sociedades livres, discordância moral não pode ser automaticamente convertida em ódio. Pais, mães e comunidades religiosas possuem direito de consciência para defender suas convicções sobre família, sexo, moralidade e educação. Democracia exige equilíbrio entre dignidade individual e liberdade de consciência — não imposição ideológica travestida de virtude.
Também no campo cultural, visibilidade não é autoridade moral. Celebridade, sarcasmo ou militância não substituem profundidade. Humor seletivo que ridiculariza apenas dogmas permitidos frequentemente deixa de ser coragem e passa a ser conformismo.
O cristão bíblico não foi chamado a ajustar indefinidamente sua fé às mutações culturais, mas a permanecer fiel. Isso não significa violência ou ausência de compaixão. Significa compreender que amor cristão não é capitulação moral.
Frei Gilson, goste-se ou não de seu estilo, tornou-se símbolo de algo maior: a recusa de muitos cristãos em permitir que sua fé seja reescrita por pressões ideológicas passageiras.
No fim, permanece a pergunta decisiva: quem moldará a consciência cristã — a Palavra de Deus ou a aprovação social?
Toda geração enfrenta seu teste. Talvez o nosso seja este: permanecer firme quando o mundo não exige apenas silêncio, mas rendição.
Bruno Brennand - Advogado