O Avesso da pressa
Dos mesmos criadores dos áudios no x2, a IA veio num ritmo de vida de quem tem pressa
Publicado: 23/04/2026 às 13:02
Em dois anos, o número de empresas com atuação na área industrial que utilizam a tecnologia de inteligência artificial (IA) mais que dobrou e apresentou um salto de 163% (Foto: Rawpick/Freepick)
Dos mesmos criadores dos áudios no x2, a IA veio num ritmo de vida de quem tem pressa. Num compasso de quem insiste que a chegada é mais importante do que a travessia.
O olho no olho, nesse cenário, virou artigo raro. E a paciência de quem viveu a era da internet de escada — feita de espera, de construção lenta e de expectativa — hoje parece não caber mais no mundo. Tudo precisa ser imediato, otimizado, resolvido antes mesmo de ser plenamente compreendido.
Vivemos, afinal, a era do conhecimento abundante. Nunca soubemos tanto, nunca tivemos tanto acesso, nunca produzimos e consumimos informação em tamanha escala. Mas há uma pergunta incômoda que atravessa esse tempo: o que estamos fazendo com tudo isso?
Porque saber mais não significa, necessariamente, compreender melhor. E muito menos sentir mais.
A inteligência artificial surge como ápice dessa lógica. Ela organiza, sintetiza, antecipa, responde. Ela acelera processos e, em muitos casos, substitui etapas inteiras do pensamento humano. Mas, ao fazer isso, também nos confronta com algo essencial: qual é o lugar do humano quando tudo pode ser resolvido com mais rapidez por uma máquina?
O ser humano, por definição, não é feito para a prontidão. Somos — e precisamos ser — seres em construção. Inacabados, imperfeitos, contraditórios. É justamente nesse estado de constante elaboração que reside a nossa humanidade.
Somos inquietos. Não há versão final de nós mesmos — e talvez seja esse o nosso maior valor.
Quando tudo passa a ser mediado por respostas prontas, há um risco silencioso de que percamos o gosto pelo processo. Pela dúvida. Pelo erro. Pela conversa que não chega a uma conclusão imediata. Pela escuta que exige tempo. Pela presença que não pode ser acelerada.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a construção de máquinas mais inteligentes, mas a perda gradual da nossa capacidade de construir laços genuínos e significativos com outros seres humanos.
Em muitos aspectos, a IA se apresenta como uma solução conveniente para um problema que nós mesmos criamos: o afastamento e a indiferença entre as pessoas.
A humanização da IA, então, revela mais sobre nós do que sobre a própria tecnologia. É reflexo de uma crise emocional mais profunda. Se buscamos máquinas que conversem, que compreendam, que respondam com empatia, talvez seja porque esses elementos estejam cada vez mais escassos nas relações humanas. Transferimos para a tecnologia aquilo que estamos deixando de cultivar entre nós.
E há algo paradoxal nisso tudo. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes. Nunca falamos tanto e, ainda assim, escutamos tão pouco. A velocidade com que nos comunicamos não acompanha a profundidade com que nos relacionamos.
Talvez o desafio não seja frear a tecnologia — o que seria ilusório —, mas resgatar, dentro desse contexto, aquilo que nos torna essencialmente humanos. O tempo da conversa. O valor do silêncio. A complexidade das emoções que não cabem em respostas automatizadas. A coragem de não saber. A disposição de continuar em construção.
Porque, no fim, a travessia importa. E muito.
Sei que cada um tem sua defesa, tese e justificativa — como preferir nomear. No meu caso, como jornalista, ainda prefiro pensar que, assim como interpretou Maria Bethânia: “o mais importante do bordado é o avesso. O mais importante em mim é o que eu não conheço”.
por Bruna de Oliveira - jornalista