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Pernambuco dá um salto histórico na cirurgia do coração

A primeira cirurgia cardíaca robótica do estado não é apenas um feito técnico. É um compromisso com a vida dos pernambucanos

João Paulo Segundo

Publicado: 16/04/2026 às 10:24

Em números concretos: internação reduzida à metade e retorno às atividades em um quarto do tempo em relação à cirurgia tradicional/Foto: Anna Bizon/freepik

Em números concretos: internação reduzida à metade e retorno às atividades em um quarto do tempo em relação à cirurgia tradicional (Foto: Anna Bizon/freepik)

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil. A cada ano, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, respondem por cerca de 400 mil óbitos — e é a doença arterial coronariana que lidera em incidência. São placas de gordura nas artérias.

É o coração que sofre em silêncio antes de gritar em forma de infarto. E, quando grita, arrasta consigo não apenas o corpo do paciente, mas o destino de famílias inteiras. A cirurgia cardíaca é, por isso, um território de máxima responsabilidade moral.

Não operamos apenas artérias ou válvulas. Operamos a fronteira delicada entre fragilidade e esperança. A cirurgia cardíaca robótica chegou ao Brasil em 2010 e, por mais de uma década, permaneceu concentrada em São Paulo. Como tantas inovações na medicina brasileira, sua expansão foi desigual — reflexo do alto custo, da estrutura exigida e da curva rigorosa de formação. Em 11 de março de 2026, realizamos a primeira cirurgia cardíaca robótica de Pernambuco. Um marco para a medicina do estado. Um marco, sobretudo, para os pernambucanos que sofrem de doenças do coração.

Chegar a esse ponto exigiu comprometimento, treinamento especializado e uma visão clara: a de que o paciente pernambucano merece o mesmo padrão de cuidado de qualquer centro de excelência do mundo. A cirurgia robótica não vale por ser nova. Vale por aquilo que permite poupar. Poupa o esterno da abertura convencional. Poupa tecido, sangue, dor e tempo. Ao operar por pequenas incisões no tórax, com visão tridimensional e movimentos de alta precisão, a plataforma robótica não diminui a grandeza do ato cirúrgico — apenas o torna menos agressivo.

Em números concretos: internação reduzida à metade e retorno às atividades em um quarto do tempo em relação à cirurgia tradicional. A qualidade da recuperação importa tanto quanto o sucesso do procedimento. Importa a forma como o paciente volta para casa, o tempo até abraçar os filhos, reassumir o cotidiano. Entre as aplicações já possíveis estão cirurgias valvares, tumores cardíacos, cardiopatias congênitas e a doença coronariana. Aqui reside uma das fronteiras mais promissoras: a revascularização sem esternotomia, associada à angioplastia em estratégias híbridas.

O melhor da cirurgia com o melhor da cardiologia intervencionista. Menos invasão, mais racionalidade, mais precisão — unir o melhor dos dois mundos.O robô, por evidente, não opera sozinho. A tecnologia não substitui o médico: exige mais dele. Exige treinamento específico, critério, maturidade técnica e juízo clínico refinado. A máquina não pensa, não indica, não escolhe, não responde moralmente.

Tudo isso continua pertencendo ao cirurgião. O que a tecnologia faz é ampliar, com delicadeza e exatidão, a capacidade humana de executar bem aquilo que a inteligência clínica decidiu ser o melhor. O coração de um pernambucano não bate diferente dos demais. Não há razão moral, científica ou civilizatória para que seja tratado com menos recursos.

Levar essa tecnologia ao nosso estado é afirmar, na prática, que a geografia não deve determinar o horizonte terapêutico de ninguém.

A medicina avança quando os médicos recusam a resignação. Pernambuco deu um passo concreto nessa direção. Não o último. Apenas o primeiro. E, como ocorre com todo passo realmente importante, ele já altera o caminho inteiro.

João Paulo Segundo é cirurgião cardiovascular do Real Instituto de Cirurgia Cardiovascular e realizou a primeira cirurgia cardíaca robótica de Pernambuco em 11 de março de 2026.

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