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A profissionalização dos clubes e os esportes olímpicos - O caso do Náutico

O Clube Náutico Capibaribe, e grande parte dos clubes esportivos brasileiros que se notabilizam hoje pelo Futebol, sempre desempenharam um papel que vai além

Alexandre Carneiro Gomes

Publicado: 14/04/2026 às 11:20

Estádio Esportes da Sorte Aflitos: Náutico muda nome de sua casa em acordo milionário/Foto: Rafael Vieira/CNC

Estádio Esportes da Sorte Aflitos: Náutico muda nome de sua casa em acordo milionário (Foto: Rafael Vieira/CNC)

O Clube Náutico Capibaribe, e grande parte dos clubes esportivos brasileiros que se notabilizam hoje pelo Futebol, ao longo de suas histórias, sempre desempenharam um papel que vai além. Eles se consolidaram como espaços de formação, convivência social, promoção de valores coletivos e embrião de novos torcedores. Nesse contexto, a desativação das instalações destinadas aos esportes olímpicos representa não apenas uma mudança estrutural, mas uma profunda ruptura na identidade dessas instituições.

O Náutico está com as quadras de seu complexo olímpico Antônio Serrano, mais que desativadas ou interditadas. Desde 2024, parte do teto foi retirado e as intempéries do tempo estão destruindo não apenas o que restava mas também o piso da quadra, trocado por um novo em 2021.

Os esportes amadores funcionam como base de sustentação social do Náutico. São eles que permitem a participação de sócios, jovens atletas e da comunidade em geral, criando um vínculo direto e contínuo com a instituição. Ao eliminar essas atividades, o clube perde sua conexão cotidiana com a sociedade, tornando-se mais distante e menos acessível.

Essa ruptura enfraquece o sentimento de pertencimento, elemento essencial para a construção de uma identidade sólida e duradoura.

Além disso, há um impacto significativo na preservação da memória e da tradição. A desativação dessas práticas implica o abandono de uma trajetória marcada por valores como inclusão, desenvolvimento humano e incentivo ao esporte de base.

Com isso, o clube deixa de ser uma entidade formadora e passa a se concentrar apenas no desempenho profissional e nos interesses mercadológicos. Ambos podem e devem caminhar juntos. A captação de recursos para conservação e desenvolvimento do patrimônio social e dos esportes olímpicos pode se dar de múltiplas formas, privadas e públicas, independentes. Algumas modalidades olímpicas inclusive podem ser profissionalizadas, igualmente.

Outro ponto relevante é o processo de elitização que tende a surgir com o fim dos esportes amadores. Sem essas atividades, o acesso ao clube torna-se mais restrito, afastando parte da população que antes participava ativamente da vida institucional. Essa transformação contribui para a perda de relevância social do clube.

Essa mudança não apenas reduz o papel social do esporte, mas também empobrece o legado cultural construído ao longo de décadas.

Dessa forma, embora a profissionalização e o foco no mundo econômico financeiro do Futebol sejam um caminho sem volta e representem avanços em termos de gestão e sustentabilidade financeira, seus efeitos colaterais sobre a identidade do clube não pode atingir certos níveis.

A desativação dos esportes olímpicos evidencia que a busca exclusiva pelo Futebol em Clubes históricos, quando não equilibrada com responsabilidade social e preservação patrimonial, pode resultar na perda da essência que dá sentido à própria existência do clube.

Ao romper vínculos sociais, abandonar tradições e restringir o acesso, essas instituições deixam de cumprir seu papel histórico e social. Assim, preservar e incentivar o esporte olímpico não é apenas uma questão administrativa, mas uma necessidade fundamental para manter viva a essência e a relevância do clube na sociedade.

 Alexandre Carneiro Gomes - advogado e ex Presidente do Conselho Deliberativo do Clube Náutico Capibaribe

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