Nomear é escolher um rumo
O Recife ganhou um novo hospital da criança
Publicado: 03/04/2026 às 10:18
Inauguração do Hospital da Criança do Recife (HCR) Antônio Carlos Figueira, em Areias (Karol Rodrigues/DP Foto)
O Recife ganhou um novo hospital da criança. Poderia ser apenas mais uma entrega na área da saúde, dessas que se anunciam com números, prazos e inaugurações. Mas nem toda obra é apenas obra. Algumas carregam uma intenção maior.
Ao receber o nome de Hospital da Criança Antônio Carlos Figueira, o equipamento deixa de ser somente estrutura física. Passa a sugerir um caminho.
Nomear é escolher um rumo.
Antônio Carlos Figueira não foi apenas um médico de excelência no exercício individual da profissão. Foi alguém que compreendeu, talvez antes de muitos, que a saúde não se sustenta sem organização. Pensava em termos de sistema, de articulação, de continuidade. E, mais do que pensar, realizava.
Havia nele uma qualidade pouco comum. Antecipava problemas e, ao mesmo tempo, construía respostas viáveis. Não se limitava a compreender a complexidade do cuidado. Fazia com que essa complexidade funcionasse no mundo real, onde as limitações são concretas e os resultados precisam aparecer.
Essa forma de atuar não nasce do acaso. Pressupõe visão, método e uma certa inconformidade com soluções improvisadas.
Ainda hoje, essa combinação faz falta.
Persistimos, com frequência, em modelos fragmentados, em fluxos mal definidos, em estruturas que não conversam entre si. E isso cobra um preço. Qualidade assistencial não se improvisa. E humanização, embora muito evocada, só se materializa quando o serviço é pensado com consistência, do desenho à execução cotidiana.
Dar a um hospital pediátrico o nome de Antônio Carlos Figueira, portanto, não é um gesto meramente formal. É, ou deveria ser, uma escolha de referência.
Quem vive a pediatria reconhece um desejo antigo, quase silencioso. O de ver serviços concebidos desde o início com critérios claros de gestão, integração entre níveis de atenção, suporte diagnóstico adequado e fluxos que funcionem sem depender de esforços heroicos. Tudo isso sem perder de vista o essencial: o acolhimento da criança e de sua família.
Não se trata apenas de tratar melhor. Trata-se de cuidar com mais qualidade, de forma contínua e previsível.
E isso não acontece por acaso. Exige decisão e planejamento.
O novo Hospital da Criança, ao menos em sua proposta, aproxima-se desse ideal. Em um ambiente frequentemente marcado por limitações estruturais, o surgimento de uma unidade organizada reacende uma expectativa legítima. Bons serviços fazem diferença concreta. Mudam desfechos, reduzem sofrimento e qualificam o próprio exercício da medicina.
Há também um efeito menos mensurável, mas não menos importante. A confiança. Quando o sistema funciona, mesmo que em partes, ela começa a ser reconstruída.
Ao evocar o nome de Antônio Carlos Figueira, o hospital assume um parâmetro. Não abstrato, mas concreto. Um modo de pensar e fazer pediatria que envolve gestão consistente, visão estratégica e compromisso real com o cuidado.
E isso traz consigo uma exigência.
Um nome dessa natureza não é neutro. Ele cobra coerência. Pressupõe um hospital que funcione de fato, que responda às necessidades e que, no cotidiano, sustente aquilo que simboliza.
Talvez esse seja o ponto mais relevante. Não se trata apenas de homenagem. Trata-se de compromisso.
Em um tempo em que a infância ainda convive com tantas vulnerabilidades, iniciativas que consigam reunir estrutura, organização e cuidado humanizado deixam de ser apenas desejáveis. Tornam-se necessárias.
O hospital nasce. Com ele, nasce também uma expectativa que vai além da inauguração. Uma expectativa de consistência ao longo do tempo.
Porque, no fim, não basta abrir portas. É preciso honrar, todos os dias, o rumo que foi escolhido.
Eduardo Jorge da Fonseca Lima - Médico Pediatra, Superintendente de Ensino, Pesquisa e Inovação do IMIP e Conselheiro Federal de Medicina por Pernambuco*