Pernambuco era "um barril de pólvora"
O livro não apenas relata fatos, mas ressuscita o espírito republicano e federalista que pairava sobre o Recife e se espalhava pelas províncias vizinhas
Publicado: 30/03/2026 às 08:03
Pintura retrata momento em que o Exército Imperial do Brasil, sob o comando do almirante britânico Thomas Cochrane, ataca as forças confederadas em Recife, capital de Pernambuco (Reprodução/Domínio público)
“O riacho do Ipiranga recolheu a cenografia da Independência, o Capibaribe ficou com o sangue das vítimas da liberdade” (Nilo Pereira)
Nos dois primeiros artigos sobre o livro "A Confederação do Equador: A Luta pela Cidadania na Construção do Brasil" (Editora do Senado), afirmou-se que a obra — por ser coletiva e, portanto, complexa em sua organização — consegue uma unidade metodológica e acadêmica exemplar e inovadora.
Sob a coordenação de George Cabral e Marcos Albuquerque, ambos da UFPE, descreve o movimento revolucionário, separatista e republicano que desafiou as bases absolutistas e centralizadoras da Coroa brasileira, então encabeçada por D. Pedro I. (Dou ao ideário pernambucano e nordestino de cidadania, o sentido amplo, próximo – mas não idêntico –, ao cosmopolitismo kantiano, o “direito a ter direitos”, no entendimento de Hannah Arendt). Foi um dos episódios mais vibrantes e dramáticos do Brasil Império, (1824), que inspirou a pintura de Francisco Brennand, João Câmara e Cícero Dias; a poesia de César Leal, Ângelo Monteiro, Alberto Cunha Melo e Audálio Alves; o teatro de Cláudio Aguiar e os ensaios de José Luiz Mota Menezes, Marcos Galindo, Luiz Delgado, Flávio Guerra, Amaro Quintas, Leonardo Dantas, entre outros. O conjunto de textos inéditos lança luz sobre o histórico movimento que culminou no sacrifício de Frei Caneca, ao mesmo tempo que oferece uma perspectiva valiosa para futuras pesquisas e abordagens — afinal, esta é a função dos estudos históricos em qualquer época. Sob essa ótica, a obra é fascinante e funciona como um verdadeiro laboratório de possibilidades.
O livro não apenas relata fatos, mas ressuscita o espírito republicano e federalista que pairava sobre o Recife e se espalhava pelas províncias vizinhas, levando-nos a refletir sobre os pilares da democracia brasileira que ainda hoje estão em debate. Atualmente, a discussão sobre a harmonia e a independência entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário (especialmente o papel do STF) ecoa essa preocupação. O livro, por sua atualidade, provoca-nos a pensar: onde termina o exercício do direito e onde começa a interferência indevida entre os poderes. Este é, inclusive, o tema de escritos recentes como o "Limits of Judicial Independence", de Tom S. Clark (The University of Chicago Press), que examina como os tribunais ajustam seu comportamento para manter a legitimidade institucional, abordando quando a atuação judicial ultrapassa os limites aceitáveis em uma democracia. Destaco, nesse contexto, o da página 255. (É importante conferir o que ora se realiza na Universidade de Chicago sobre temas do Brasil, marcados por vertentes distintas e influentes no passado e no contemporâneo). O livro sobre a Confederação do Equador consolida-se, portanto, como uma obra de referência absoluta, não apenas para a historiografia pernambucana, mas para a compreensão das raízes democráticas do país. A novidade é que é possível baixar gratuitamente (e copiar) esta coletânea de ensaios (mais de 800 páginas) em formato digital. O arquivo está disponível no site do Senado Federal (livraria.senado.leg.br) nos formatos PDF e ePUB, sem necessidade de cadastro ou login.
Por fim, sendo a maior referência até agora sobre o tema, recomenda-se a leitura atenta dos fundamentos teóricos que nortearam a coordenação do livro, o critério de seleção de textos, sua matriz teórica, o seu Lócus de enunciação cultural e epistêmico.
Marcus Prado - Jornalista