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O agente secreto da democracia: o preço do esquecimento e o poder das sombras

Todo regime autoritário produz não apenas vítimas, mas também zonas de sombra

Orlando Morais Neto

Publicado: 18/03/2026 às 14:08

Cena de 'O Agente Secreto'/Cinemascópio

Cena de 'O Agente Secreto' (Cinemascópio)


Todo regime autoritário produz não apenas vítimas, mas também zonas de sombra. É nelas que operam os agentes invisíveis do poder: serviços de inteligência, estruturas clandestinas de repressão, arquivos ocultos e cadeias de comando dissimuladas. O “agente secreto”, mais do que uma pessoa, simboliza um modo de funcionamento do Estado quando ele abandona a transparência do direito e passa a agir pela lógica da ocultação.

Nos regimes de exceção, a violência raramente se apresenta de forma aberta. Ela se esconde em relatórios sigilosos, ordens informais, operações não assumidas e desaparecimentos sem vestígios. O terror político não depende apenas da força — depende da opacidade. E é justamente aí que o esquecimento deixa de ser um efeito colateral e passa a ser uma estratégia.

A justiça de transição surge para romper esse pacto silencioso. Seu objetivo não é apenas punir indivíduos, mas desmontar a engrenagem que transformou o segredo em método de governo. Por isso, sustenta-se em pilares claros: verdade, memória, responsabilização, reparação e reforma institucional. Sem isso, a transição não passa de encenação — muda-se o regime, mas preserva-se a lógica.

O esquecimento, nesse contexto, nunca é inocente. Frequentemente apresentado como reconciliação, ele pode ser apenas uma forma sofisticada de continuidade. Quando não se esclarece quem vigiou, quem reprimiu, quem mandou e quem se beneficiou, o passado não termina — ele se infiltra no presente, silenciosamente, moldando práticas e mentalidades.

O “agente secreto” torna-se, então, o símbolo mais claro de uma democracia inacabada. Ele representa aquilo que não foi exposto, aquilo que permanece nos arquivos fechados, nas estruturas que resistem e na cultura que naturaliza a exceção. Onde não há verdade pública, há sempre espaço para a repetição.
Por isso, a justiça de transição não se limita à punição. Ela é, sobretudo, uma disputa contra o esquecimento. Abrir arquivos, reconhecer vítimas, revisar narrativas e transformar instituições não são gestos do passado — são garantias do futuro. Sem isso, a democracia permanece vulnerável às mesmas sombras que um dia prometeu superar.

Há uma relação direta entre segredo e impunidade: o segredo protege o autor da violência; o esquecimento protege o sistema que a tornou possível. A memória rompe esse ciclo. Lembrar não é insistir na dor — é impedir que ela se normalize. No fundo, a pergunta decisiva não é apenas “quem deve ser punido?”, mas “o que não pode continuar oculto?”. Sem verdade, a paz pode ser apenas silêncio prolongado.

E talvez seja justamente aí que reside a lição mais incômoda — e mais necessária. A justiça de transição raramente produz aplausos imediatos. Não costuma render prêmios, nem reconhecimento instantâneo. Mas, como certos filmes que não levam o Oscar e ainda assim atravessam gerações, ela cumpre uma função essencial: a de permanecer.

Permanecer como memória. Permanecer como advertência. Permanecer como limite. Porque a democracia que escolhe esquecer não se reconcilia — apenas adia o conflito. E toda sociedade que insiste em não olhar para trás corre o risco de, mais cedo ou mais tarde, reencontrar o seu passado no futuro.

Orlando Morais Neto - Advogado, procurador geral de Jaboatão dos Guararapes, pós graduado em Direito Público e Direito Eleitoral. Mestre e Doutorando em Direito Público pela Unicape e pela Universidade de Pisa

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