Os vieses comportamentais e a guerra contra o Irã
A história demonstra que guerras raramente começam apenas por cálculos racionais de custo-benefício
Publicado: 17/03/2026 às 07:52
Pessoas lamentam a morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, assassinado em ataques conjuntos dos EUA e de Israel, em Teerã ( AFP)
Costumamos imaginar que decisões políticas de grande escala, especialmente aquelas relacionadas à guerra, são tomadas a partir de análises técnicas frias e cálculos estratégicos rigorosos. No entanto, essa percepção ignora uma realidade central da condição humana: nossa racionalidade é limitada. Frequentemente somos mais influenciados por fatores cognitivos e emocionais do que por dados objetivos.
No meu livro Desenvolvimento Empresarial: estratégias para a longevidade empresarial no mundo disruptivo, argumento que líderes, sejam empresariais ou políticos, não são agentes plenamente racionais. Tomam decisões sob influência de emoções, crenças prévias, pressões externas e vieses cognitivos. Esse fenômeno já é preocupante no mundo corporativo; no campo geopolítico, pode ser devastador.
A ciência comportamental mostra que indivíduos recorrem a atalhos mentais para decidir em ambientes de incerteza. O problema surge quando esses atalhos distorcem a percepção da realidade. No cenário internacional atual, é plausível argumentar que o presidente dos Estados Unidos possa estar, ao menos parcialmente, sob a influência de dois vieses relevantes.
O primeiro é o viés do excesso de confiança, considerado por Richard Thaler, prêmio Nobel de Economia, como um dos mais perigosos. Ele ocorre quando um indivíduo, conhecedor de apenas parte de uma situação, acredita possuir compreensão total do problema. Líderes com grande poder institucional podem superestimar sua capacidade de controle e subestimar a reação do adversário, sobretudo quando não se conhecem plenamente as capacidades de resposta do Irã, direta ou indireta.
O segundo é o viés da confirmação, isto é, a tendência de buscar apenas informações que confirmem crenças prévias. Em ambientes decisórios fechados, podem surgir círculos homogêneos de aconselhamento, nos quais dados dissonantes são ignorados ou minimizados. O resultado é uma percepção estratégica artificialmente otimista.
No livro, defendo que o desenvolvimento, empresarial ou institucional, exige três pilares: análise crítica para reduzir os vieses, humildade intelectual e mecanismos de correção de rota. Empresas que ignoram esses princípios fracassam no projeto para a longevidade; na política internacional, as consequências podem ser muito mais graves.
A história demonstra que guerras raramente começam apenas por cálculos racionais de custo-benefício. Muitas vezes surgem de percepções distorcidas e da leitura seletiva de informações. Reconhecer os limites da racionalidade humana não é sinal de fraqueza, mas de maturidade institucional.
Se o desenvolvimento empresarial exige consciência dos vieses para evitar decisões equivocadas, a condução de uma nação requer vigilância cognitiva ainda maior. Porque, no limite, um erro corporativo gera prejuízo; já um erro geopolítico pode desencadear guerras devastadoras.
Uranilson Carvalho - professor de Economia da UNIFAFIRE com formação em Behavioral Finance pela University of Chicago (EUA)