Deveriam ser só Crianças
Nos últimos anos ficamos atônitos com notícias alardeadas, que se perfizeram em concreto em alguns casos, sobre os riscos que rondam nossas crianças
Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues
Publicado: 27/02/2026 às 08:53
Crianças brincando na natureza (br.freepik.com)
Nos últimos anos ficamos atônitos com notícias alardeadas, que se perfizeram em concreto em alguns casos, sobre os riscos que rondam nossas crianças. O cenário global da violência contra crianças em 2025 e 2026 apresenta dados alarmantes, com crises humanitárias e o ambiente digital intensificando os perigos.
O número de crianças vivendo em zonas de conflito armado atingiu 520 milhões em 2024, um recorde pelo terceiro ano consecutivo.
No início de 2026, a UNICEF reportou que crianças continuam sendo mortas, detidas e privadas de educação em países como Síria e Sudão, onde apenas em janeiro de 2026 pelo menos 20 crianças foram mortas.
Cerca de 300 milhões de crianças sofreram algum tipo de abuso ou exploração sexual online mundialmente. No Brasil, as denúncias de crimes cibernéticos contra menores cresceram 19,3% em 2025, superando 63 mil registros.
Grandes empresas de tecnologia enfrentam processos judiciais sob acusação de "viciar" intencionalmente crianças em suas plataformas, o que estaria agravando crises de saúde mental e expondo-as a predadores.
Investigações recentes no Brasil (fevereiro de 2026) desmantelaram redes de exploração que envolviam o uso de aplicativos como o Discord para incentivar a automutilação e esquemas de abuso familiar com a conivência de responsáveis. E não para por aí.
No Brasil, o Atlas da Violência 2025 aponta mais de 115 mil vítimas de abuso infantil por ano, sendo que mais de 80% são meninas, em sua maioria negras.
O suicídio tornou-se a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, refletindo um "colapso" nos sistemas de proteção e suporte psicológico.
Isso nos faz pensar que parte da infância pura está sendo perdida e outros valores estão sendo inseridos neste grupo, que não deveriam estar ali contidos.
Por certo, valores familiares, de solidariedade, alegria e paz estão sendo substituídos, não mais lentamente como pensávamos, mas a ritmo galopante.
Mas isso é obra do acaso ou do Divino? Marcante a frase de Umberto Eco: Justificar tragédias como “vontade divina” tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas”. Precisamos escolher dar um ponto final nisso. A violência contra crianças é um problema estrutural que exige soluções coletivas.
Instituições como a Childhood Brasil trabalham diretamente no enfrentamento à exploração sexual e na capacitação de profissionais da educação para identificar sinais de abuso.
A família tem o dever legal de proteger. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a família é a primeira responsável pela integridade do menor. Negligência também é uma forma de violência.
Nunca deve ser minimizado um medo ou reclamação da criança. Dizer "isso é bobagem" ensina a criança que ela não pode confiar nos próprios instintos.
Por outro lado temos famílias com pais acometido de burnout parental. O Burnout Parental é o esgotamento físico e mental extremo resultante do estresse crônico de criar filhos. Diferente do estresse comum, ele ocorre quando as demandas da parentalidade superam sistematicamente os recursos emocionais e físicos dos pais.
Para poupar energia, os pais passam a agir no "piloto automático". Eles cuidam das necessidades básicas (comida, banho, escola), mas perdem a capacidade de se conectar, brincar ou oferecer afeto. A relação torna-se puramente funcional.
Pais com depressão ou exaustão extrema (burnout parental) tendem a se tornar negligentes sem querer.
Cuidar de si é o primeiro passo para cuidar do outro e nossas crianças precisam de nós.
Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues - Advogado e professor universitário.