Por que a proteção social é decisiva no combate à fome
A Síntese de Indicadores Sociais 2025, divulgada pelo IBGE em dezembro do ano passado, revela um Brasil que voltou a trilhar o caminho da reconstrução social
Publicado: 12/02/2026 às 11:15
Os indicadores também reforçam que pobreza e fome não são sinônimos, mas caminham juntas. (Foto: freepik)
A Síntese de Indicadores Sociais 2025, divulgada pelo IBGE em dezembro do ano passado, revela um Brasil que voltou a trilhar o caminho da reconstrução social. Repetindo a tendência de 2023 e 2024, houve nova redução da pobreza e da extrema pobreza, marcando uma inflexão histórica após anos de retrocessos.
A taxa de pobreza caiu de 27,3% para 23,1%, o que representa 8,6 milhões de pessoas a menos nessa condição. Já a extrema pobreza recuou de 4,4% para 3,5%, retirando 1,9 milhão de pessoas da privação extrema de renda. No acumulado de 2023 e 2024, estima-se que cerca de 17,5 milhões de brasileiros tenham superado a pobreza e aproximadamente 5 milhões tenham saído da extrema pobreza.
Os dados evidenciam o papel decisivo da proteção social. Sem aposentadorias e pensões, a extrema pobreza entre idosos saltaria de 1,9% para 35,4%. Da mesma forma, sem os programas sociais, a extrema pobreza teria triplicado, alcançando 10% da população. Políticas públicas fazem diferença concreta e imediata na vida das pessoas.
Os indicadores também reforçam que pobreza e fome não são sinônimos, mas caminham juntas. Quando o emprego cresce, a renda melhora e as políticas sociais são fortalecidas, o país reduz a pobreza e cria condições para enfrentar a fome. Nesse contexto, os dados recentes da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar mostram que o Brasil retornou ao menor nível histórico de fome: 3,2% dos domicílios, o mesmo patamar de 2013. A FAO confirmou a Prevalência de Subalimentação abaixo de 2,5%, retirando novamente o país do Mapa da Fome.
Essa virada tem raízes comuns: política econômica orientada à geração de emprego e renda, combinada ao fortalecimento dos programas sociais. Entre os ocupados, apenas 0,6% estavam abaixo da linha de extrema pobreza; entre os desocupados, esse índice chegava a 13,7%.
A reconstrução se materializa no Brasil Sem Fome, que integra acesso à renda, proteção social e apoio à produção e ao consumo de alimentos saudáveis, com coordenação federativa e participação social. Sem esse arranjo, não haveria resposta compatível com o desafio enfrentado em 2023, quando 33 milhões de pessoas viviam em situação de fome.
Os dados também mostram redução da desigualdade: o índice de Gini seria 7,5% maior sem os programas sociais, chegando a 16,4% no Nordeste. Ainda assim, a pobreza segue marcada por raça, gênero e território. Pessoas negras concentram a maior parte dos pobres, e as mulheres continuam mais afetadas.
O Brasil mostra, mais uma vez, que é possível enfrentar e vencer a pobreza e a fome. Ainda convivemos com desigualdades e ainda há corpos e territórios onde a fome dói. Mas o caminho que estamos trilhando revela algo fundamental: quando o país coloca o combate à fome e à pobreza no centro da agenda, a vida das pessoas muda. É assim que garantiremos que o Brasil nunca mais volte ao mapa da fome.
Por Valéria Burity, Secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome e Francisco Menezes, Ex-presidente do Consea