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Talvez 1984 seja agora

George Orwell não escreveu um livro sobre o futuro. Escreveu uma carta para quem ainda tivesse coragem de ler nas entrelinhas

Orlando Morais Neto

Publicado: 05/02/2026 às 07:06

Livros/Freepik

Livros (Freepik)

George Orwell não escreveu um livro sobre o futuro. Escreveu uma carta para quem ainda tivesse coragem de ler nas entrelinhas. Em 1984, o mundo não desaba de uma vez. Ele se acomoda. A liberdade não é tomada à força. Ela escorre devagar, quase sem ruído, até que chega um dia em que ninguém mais sabe dizer quando começou a desaparecer.

Talvez o erro seja imaginar que 1984 falhou porque não acordamos sob cartazes ameaçadores ou sob o olhar direto de um ditador. O controle real raramente grita. Ele é discreto, educado, eficiente. Pede licença. E nós consentimos.

Vivemos um tempo curioso. Nunca falamos tanto em liberdade e nunca fomos tão observados. Andamos com mapas no bolso que sabem onde estamos. Conversamos com aparelhos que escutam mesmo quando não chamamos. Compartilhamos pensamentos em espaços que guardam tudo. Sabemos disso e seguimos adiante. Talvez porque o conforto tenha aprendido a se parecer demais com a liberdade.

No mundo de Orwell, o poder precisava vigiar. No nosso, ele coleta. Não impõe, sugere. Não ordena, recomenda. Não pune, ajusta. Somos conduzidos por caminhos que parecem escolhas, mas já estavam desenhados. A liberdade persiste mais como sensação do que como realidade plena.

É nesse ponto que Byung-Chul Han ajuda a entender o presente. Para ele, o controle contemporâneo não se exerce pela repressão, mas pela sedução. Não somos obrigados a obedecer. Somos estimulados a participar. A vigilância deixa de ser externa e se torna voluntária. Cada um passa a se expor, a se medir, a se cobrar, acreditando estar apenas exercendo sua autonomia.

Quem controla nossas vidas hoje não tem rosto nem farda. O controle se diluiu em códigos, métricas, curtidas, números invisíveis. Somos transformados em dados, avaliados em silêncio, classificados sem defesa. E o mais inquietante é perceber que participamos disso ativamente. Alimentamos o sistema que nos observa.

A liberdade, esse direito humano tão proclamado, talvez não esteja sendo retirada, mas redesenhada. Já não significa errar, desaparecer ou pensar sem testemunhas. Passa a significar funcionar bem dentro do sistema. Ser livre, hoje, parece ser compatível.

Ainda temos livre-arbítrio. Talvez. Mas um livre-arbítrio cansado, constantemente interrompido. Pensar virou esforço. Silenciar causa estranhamento. Discordar tem custo.

1984 não perguntava se seríamos felizes. Perguntava se ainda seríamos humanos. Se haveria espaço para a dúvida, para o pensamento livre, para o direito de não sermos rastreados. A liberdade nunca foi confortável. Quando se torna confortável demais, talvez já não seja liberdade.

Talvez não estejamos presos. Talvez estejamos apenas muito bem administrados. E talvez o maior enigma do nosso tempo não seja descobrir quem nos vigia, mas saber se ainda somos capazes de desejar, de verdade, a liberdade que dizemos defender.

Orlando Morais Neto - Procurador municipal e advogado

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