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Do Altar ao Algoritmo: A Crise da Verdade e a Nova Governança

A história da humanidade pode ser lida como uma sucessão de monopólios sobre a "Verdade". Quem detém a chave do que é considerado verdadeiro detém, por consequência, as rédeas da dominação social e econômica

Otavio Moraes

Publicado: 04/02/2026 às 16:12

Economia/ Marcello Casal JrAgência Brasil

Economia ( Marcello Casal JrAgência Brasil)

A história da humanidade pode ser lida como uma sucessão de monopólios sobre a "Verdade". Quem detém a chave do que é considerado verdadeiro detém, por consequência, as rédeas da dominação social e econômica. Como professor e conselheiro de organizações, observo com preocupação que, embora os agentes tenham mudado, os mecanismos de manipulação e o desvio de finalidade das instituições permanecem assustadoramente similares.


Iniciamos essa jornada com o Direito Divino dos Reis. A verdade era uma herança de sangue e a dominação se exercia pela espada. Com o tempo, o eixo deslocou-se para a Instituição Eclesiástica. Durante séculos, a Igreja Católica, distanciando-se de sua gênese de simplicidade e serviço, aliou-se aos tronos para gerir não apenas a fé, mas o poder temporal. A verdade estava trancada em Bíblias de latim inacessível, e o medo do "inferno" era a ferramenta de Compliance da época.

O protesto de Martinho Lutero em 1517 não foi apenas um evento teológico; foi a primeira grande auditoria de Governança da história. Usando a "disrupção tecnológica" da prensa de Gutenberg, ele quebrou o monopólio da informação. A resposta da Igreja — a Contrarreforma — ensinou-nos que instituições milenares só sobrevivem quando têm a coragem de realizar um rebranding ético, investindo em inovação, treinamento e transparência.


Hoje, vivemos a terceira grande fase: a Era da Ciência e do Algoritmo. Substituímos o "Deus quer" pelo "A Ciência comprova". No entanto, corremos o risco de transformar a ciência — que deveria ser o campo da dúvida e do método — em um novo dogma inquestionável. Quando dados são manipulados para servir a agendas corporativas, interesses institucionais e algoritmos de "caixa-preta" ditam comportamentos sem transparência, podemos estar diante de uma nova Inquisição, agora digital.


Para o empresário, da indústria de equipamentos pesados, do varejo de vizinhança, do setor de tecnologia ou de serviços, a lição é clara: o consumidor de 2026 está exausto de ser "dominado". Ele identifica o "latim moderno" dos termos técnicos vazios e das promessas de marketing sem lastro. A Nova Governança exige um retorno à gênese da confiança. Empresas perenes serão aquelas que abandonarem o modelo de manipulação (o nudging predatório) em favor da liderança ética. Não basta ser eficiente; é preciso ser íntegro. No conselho de administração, no balcão da loja ou na gestão de um clube a única "verdade" que resiste ao tempo é aquela que gera valor real para o outro, sem o uso do medo ou da desinformação como ferramenta de venda de produtos, serviços ou de ideias.


A história nos ensina que todo monopólio da verdade um dia rui. O que permanece, através dos séculos, é a reputação construída sobre o pilar da ética e da transparência. No Brasil plural, de tradições e inovações, que saibamos liderar não pela força do dogma ou de narrativas, mas pela autoridade e excelência da entrega!

*Professor Otavio Moraes, sociólogo, MSc em Administração, mentor de Governança Corporativa e membro de Conselhos de Organizações

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