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O sincretismo festivo do Homem da Meia Noite

Há exatos 80 anos (1946), Roger Bastide — um dos sociólogos que mais entendeu o Brasil, atraído pelos escritos de Gilberto Freyre, de quem era amigo — e o famoso folclorista Luís da Câmara Cascudo vieram conhecer o Carnaval do Recife e de Olinda

Marcus Prado

Publicado: 02/02/2026 às 09:51

Homem da meia-Noite comleta 94 anos de história /Divulgação

Homem da meia-Noite comleta 94 anos de história (Divulgação )

Há exatos 80 anos (1946), Roger Bastide — um dos sociólogos que mais entendeu o Brasil, atraído pelos escritos de Gilberto Freyre, de quem era amigo — e o famoso folclorista Luís da Câmara Cascudo vieram conhecer o Carnaval do Recife e de Olinda. Não chegaram como simples visitantes; o interesse era conhecer de perto o que chamamos de sincretismo religioso afro-brasileiro, no qual as fronteiras entre o sagrado e o profano se dissolvem. No olhar de Câmara Cascudo, o Calunga (inspirador da agremiação olindense Patrimônio Cultural de Pernambuco) não é apenas um boneco, mas um elemento central da cultura popular nordestina e um símbolo da ancestralidade africana. Em Olinda, ele é uma entidade, um símbolo místico e o guardião oficial da folia. Em sua obra Dicionário do Folclore Brasileiro, ele registra o Calunga com um significado profundo, ligado às tradições de raiz bantu. É visto como uma representante dos ancestrais e orixás, agindo como um elo entre o mundo visível e o sagrado africano. Este é um tema recorrente nas pesquisas de Roberto DaMatta, Roberto Motta, Raul Lody, Mário Souto Maior, Olímpio Bonald Neto, Evandro Rabelo, Luiz Cristóvão dos Santos — intelectuais que, através da antropologia e da sociologia, analisaram a formação da cultura não só pernambucana, abordando o sincretismo afro-brasileiro. Falar do Calunga Homem da Meia Noite é mergulhar em uma das figuras mais místicas e respeitadas do Carnaval de Pernambuco. No contexto do sincretismo e das religiões de matriz africana (como o Xangô e a Jurema Sagrada), ele transcende o status de "boneco gigante" para se tornar uma “entidade” espiritual viva. É uma figura carregada de camadas esotéricas e folclóricas. Visto na multidão, parece uma divindade vestida de boneco: detém rituais de vestimenta e não é apenas transportado, mas sim "incorporado" pela energia da cidade. Parece um segredo maçônico; ninguém sabe nada sobre ele ou suas roupas antes da meia-noite. Daí o frenesi da multidão antes da apoteose da saída. Na Ilíada, de Homero, Apolo cria um ídolo de Eneias para distrair os gregos numa festa; acredita-se que os bonecos tenham surgido ainda na Idade Média, na Europa, a partir da influência dos mitos pagãos.

Fui mais de uma vez assistir à saída triunfal e delirante do Homem da Meia Noite a partir da sua sede, no bairro olindense do Bonsucesso. Embora não estivesse distante, com o uso do meu equipamento fotográfico e lentes de aproximação, pude ver rostos de homens e mulheres como se estivessem em êxtase diante do que chamam de boneco, confundindo o personagem com um desses bonecos gigantes que animam o Carnaval da Marim dos Caetés. Nunca vi fenômeno igual, tão singular e inusitado, em uma festa popular. O êxtase coletivo é como se fosse (metaforicamente) um elétron a irradiar a sua energia cinética em direção ao seu núcleo. Ao rever o resultado das fotos que produzi, volto a lembrar-me das pesquisas de Claude Lévi-Strauss, o pai da antropologia estruturalista, sobre os símbolos de ancestralidade, em busca de uma legenda para essas imagens. (A experiência brasileira contribuiu para a formação de Lévi-Strauss como etnógrafo). "Na tradição africana, um símbolo é um reservatório de sabedoria e uma ponte entre o mundo visível e o dos antepassados." Na verdade, o homem sempre teve um desejo irreprimido de idolatria. Parece carregar um vácuo de reverência, preenchido por divindades tradicionais a partir do culto ao sol e perpetuado em formas modernas.

Por fim, destaco pesquisas associadas à University of Cambridge e publicações da Cambridge University Press (2025) que abordam o sincretismo religioso no Brasil não apenas como uma "mistura" de crenças, mas como um processo dinâmico de ressignificação cultural, resistência histórica e adaptação, envolvendo o catolicismo popular e religiões de matriz africana.
O primeiro foca na cultura material e religiosa, enquanto o segundo foca na estrutura social e relacional.

*Jornalista

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