Cooperação versus não cooperação na crise internacional
No livro A Esquerda Hoje (Rio de Janeiro: Alta Cult, 2021), proponho que a evolução da humanidade ocorre a partir das contradições permanentes entre as propensões a cooperar e a não cooperar
Publicado: 28/01/2026 às 08:13
Presidente dos EUA, Donald Trump, durante entrevista coletiva (SAUL LOEB / AFP)
No livro A Esquerda Hoje (Rio de Janeiro: Alta Cult, 2021), proponho que a evolução da humanidade ocorre a partir das contradições permanentes entre as propensões a cooperar e a não cooperar. Em Teoria dos Jogos, aprendemos que, em cada situação de possível conflito, a racionalidade nos aponta o caminho da cooperação ou da não cooperação, dependendo dos ônus e benefícios vislumbrados como resultado de cada uma dessas estratégias. A predominância de cada um deles depende de vários fatores, incluindo a cultura, as ideologias e as instituições prevalecentes. Estas últimas são imposições sociais, com regras definidas ao longo da história e válidas para todo um grupo. Elas restringem as ações humanas. As duas primeiras, por sua vez, são fenômenos sociais interiorizados pelos indivíduos que apenas motivam suas ações. Todas essas motivações mencionadas evoluem ao longo do tempo a partir de conflitos entre classes e segmentos sociais. Mas sempre possuem alguma inércia.
Após a Segunda Guerra Mundial, formou-se um arcabouço institucional internacional cuja motivação para sua criação foi a cooperação entre nações. A base para tal foi dupla: (i) uma ideologia liberal com baixo altruísmo, mas que emergia de uma guerra em que a percepção de payoffs sinalizava para uma postura racionalmente cooperativa; (ii) uma ideologia de esquerda, obviamente bem mais altruísta, que defendia a formação de instituições que incorporassem a cooperação como princípio básico, pois partia da avaliação de que o altruísmo é componente fundamental da natureza humana.
Ao longo dos anos, contudo, a crença no altruísmo enfraqueceu. A crise do petróleo de 1974, entre outras, levou à redução do crescimento econômico em escala global. Na década de 1980, a concentração de renda começou a aumentar no mundo desenvolvido. As frustrações em relação às expectativas formadas pelos indivíduos multiplicaram-se. Com isso, o altruísmo e a percepção de sua relevância diminuíram. Como consequência, governos liberais ascenderam (Thatcher e Reagan são exemplos). O egoísmo enraizado no liberalismo, entretanto, não gerou os resultados esperados. As frustrações continuaram crescendo, e o resultado foi a nova ascensão do fascismo (trumpismo, bolsonarismo, poder de Putin, etc.). Essas forças passaram a questionar o arcabouço institucional construído dentro de uma lógica cooperativa, chegando a minar organismos como a ONU e a OTAN. A ideologia fascista recorre à ideia de que o altruísmo não faz parte da natureza humana e de que as pessoas são essencialmente egoístas e violentas. Por isso, defende um Estado forte e muita religiosidade, como forma de viabilizar uma convivência não destrutiva. Daí a ênfase em segurança e homogeneidade das pessoas, seja por cor, raça, cultura, religião ou preferências sexuais.
Para derrotar essa brutalização da sociedade, a tendência ao fim da cooperação e o retorno à lei da selva, é necessário enfrentar a extrema-direita. No Brasil, o próximo desafio é eliminar a predominância da representação bolsonarista no Congresso Nacional e eleger um presidente que tenha no altruísmo a base de sua prática política. Precisamos eleger um presidente cujas metas principais sejam expandir e melhorar o ensino e os serviços de saúde ofertados à população, entre outros avanços sociais. Ou seja, alguém que adote uma lógica cooperativa fundamentada na convicção de que o altruísmo faz parte da essência do ser humano.