O último dia de Frei Caneca
O Recife amanheceu com ares pesados e sombrios naquela manhã de 13 de janeiro de 1825
Publicado: 22/01/2026 às 09:35
Revolucionário Frei Caneca participou da Confederação do Equador, que completa 200 anos (Reprodução)
O Recife amanheceu com ares pesados e sombrios naquela manhã de 13 de janeiro de 1825. Por volta das nove horas, saiu da Casa de Câmara e Cadeia (atual Arquivo Público Estadual João Emerenciano) o cortejo com Joaquim do Amor Divino Rabelo, carmelita, jornalista, professor, maçom e revolucionário, que entrou para os Anais da História com o nome de Frei Caneca. Sobre ele pesavam as acusações de sedição e rebelião contra o Império, condenado à pena capital por enforcamento pelo tribunal militar que se instalou no Recife após a derrota da Confederação do Equador de 1824.
Na noite que antecedeu sua morte, Frei Caneca confessou-se pela última vez e recebeu do Frei Carlos de São José e Souza, prior dos Carmelitas, a comunhão e o Sagrado Viático, que prepara a alma para a passagem da vida terrena para a vida eterna. Suas últimas horas foram de serenidade e de reflexão. Aproveitou para escrever cartas para suas afilhadas, na verdade, filhas, e poemas, dentre eles o famoso Hymma de Frei Caneca, de onde se lê “Quem passa a vida que eu passo, não deve a morte temer; coma morte não se assusta, quem está sempre a morrer”.
Com passos largos, porém firmes, Frei Caneca, seguiu à frente do cortejo, que passou pela Rua do Imperador, e parou na Igreja do Terço, onde Dom Coelho da Silva Coutinho, Arcebispo do Rio de Janeiro, fez a destituição de suas vestes sacerdotais, uma forma simbólica de tirar dele qualquer aura religiosa e matá-lo como uma pessoa comum. Chegaram, inclusive, a raspar suas digitais, num gesto para anular quaisquer resquícios de suas práticas religiosas.
A clemência que faltou à Caneca por parte do Imperador D. Pedro I veio em sobra dos três carrascos que se negaram a executá-lo. Conta-se que até Nossa Senhora do Carmo apareceu nos céus do local onde estava armado o patíbulo e pediu que não matassem o frei. Com a insistência daquele ato insano, um dos soldados teria caído desfalecido por desobedecer à Mãe de Cristo.
A pena foi comutada (mudada) de enforcamento para arcabuzamento, erroneamente chamado de fuzilamento em alguns livros. Suas últimas palavras foram: “não me deixem padecer por muito tempo”. A morte se deu próximo ao local onde hoje se encontra seu busto ao lado da Forte das Cinco Pontas. Seu corpo foi levado por dois detentos num caixão de pinho até a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e sepultado em local até hoje desconhecido. Frei Caneca morreu com 45 anos. Deixou três filhas, Carlota, Ana e Joana, e um lema que ecoou para a eternidade: quem bebe da minha caneca sente sede de liberdade!
* O autor é historiador, professor da rede pública estadual de ensino, e escritor. Sócio honorário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, vice-presidente do Instituto Histórico, Geográfico, Arqueológico e Antropológico da Cidade do Paulista e membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista.