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A Falta de Memória e o Trauma Geracional – A vida retratada no Filme O Agente Secreto.

O Agente Secreto, ganhador do Globo de Ouro como filme de linguagem não inglesa, é um filme sobre memória, a falta dela e o trauma geracional

Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues

Publicado: 16/01/2026 às 07:38

Wagner Moura em cena de O Agente Secreto/Reprodução

Wagner Moura em cena de O Agente Secreto (Reprodução)

O Agente Secreto, ganhador do Globo de Ouro como filme de linguagem não inglesa, é um filme sobre memória, a falta dela e o trauma geracional. “Eu acho que, se traumas podem ser passados por gerações, valores também podem”, disse Wagner ao discursar na premiação.


Que frase forte e verdadeira.


De fato, a memória, no filme, não aparece como narrativa organizada, mas como fragmentos. Fotografias, fitas, relatos truncados, rumores. Há sempre algo que falta — e essa falta é política.


A ditadura não apenas produziu traumas. Produziu também não-memória, zonas de silêncio e esquecimento forçado. A fala de Wagner na cerimônia do Globo de Ouro ilumina o sentido mais profundo do filme.


Nasci na cidade de Recife, no local e data que a história é retratada, tive componentes de minha família que “desapareceram” durante a ditadura militar, foram torturados e outros exilados, mas nunca foram temas de conversas intensas em meu lar.


Foi como se tivéssemos um pacto de silêncio, como se meus pais quisessem nos proteger de eventuais resquícios de violência mais poderosa que nós.


Esse silêncio cria uma falta de memória consciente nos filhos, que sentem uma angústia ou medo inexplicável (o chamado "fantasma na biblioteca"), pois não possuem a história para dar sentido ao que sentem.


A falta de memória sobre a ancestralidade impede a construção de uma identidade sólida. Quando grupos inteiros sofrem apagamentos históricos (como o colonialismo), a perda da memória coletiva gera uma desorientação que pode se manifestar como depressão ou baixa autoestima geracional.

O filme resgata a importância da memória e seu processo de cura dentro da sociedade.

Se o trauma geracional se alimenta do silêncio e do esquecimento, a memória é o antídoto.

Lembrar não é apenas "revisitar o passado", mas sim reorganizar o presente.

Muitas vezes carregamos ansiedades que não nos pertencem. Ao recuperar a memória familiar (através de relatos, fotos ou documentos), você retira a dor do campo do "sentimento abstrato" e a coloca no campo do "fato histórico". Quando você descobre o porquê de um comportamento, ele perde o controle sobre você.

O trauma tende a fragmentar a memória. O evento fica "preso" na amígdala (emoção pura) sem passar pelo hipocampo (contexto e tempo).


Ao narrar a história e lembrar dos detalhes, você ajuda o cérebro a processar a experiência. A memória deixa de ser um "flashback" traumático e passa a ser uma biografia.


A falta de memória nos condena a repetir o que não foi resolvido. Curamos o trauma geracional quando lembramos do erro ou da dor dos antepassados para podermos escolher agir de forma diferente. É o que chamamos de quebrar o ciclo.

A memória não serve apenas para lembrar da dor, mas também da resiliência. Ao resgatar a história de quem veio antes, você descobre as estratégias de sobrevivência e a força que permitiram que você estivesse aqui hoje.

Agradeço a memória de meus tios, que não estão mais aqui, pois nos trazem a memória do que não pode ser esquecido em prol de uma vida melhor neste País.

Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues. Advogado e Professor Universitário.

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