Nosso congresso continua aprontando
Lideranças do Centrão no Congresso Nacional tornam-se, a cada dia, mais agressivas na tentativa de controlar ou influenciar instituições do mercado financeiro
Publicado: 14/01/2026 às 09:55
Congresso Nacional (Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados)
Lideranças do Centrão no Congresso Nacional tornam-se, a cada dia, mais agressivas na tentativa de controlar ou influenciar instituições do mercado financeiro. A operação da Polícia Federal que envolveu corretoras com associação ao crime organizado pôs em risco lideranças do grupo que se beneficiavam de esquemas ligados ao PCC. O escândalo do Banco Master também guarda proximidade com políticos do bloco, que parecem ter se mobilizado para barrar desdobramentos e abafar informações que poderiam incriminar seus membros. Nesse contexto, recorreram a um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus, para tentar pôr em xeque ações do Banco Central e reduzir danos aos aliados. O magistrado foi indicado ao tribunal pelo Congresso Nacional, com forte articulação do partido Republicanos e apoio do então presidente da Câmara, Arthur Lira. A liderança da legenda, especialmente seu pai, o deputado João de Jesus, foi decisiva na indicação de Jhonatan, que foi ele mesmo deputado federal por Roraima entre 2011 e 2023. Na ânsia de defender seus pares, o ministro tomou medidas consideradas alheias às competências do TCU, exigindo uma forte mobilização do setor financeiro para evitar que ele revertesse a liquidação do Banco Master.
Nesta semana, sob pressão do Centrão, houve a indicação de Otto Lobo para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O órgão é responsável por regular, desenvolver e fiscalizar o mercado de capitais no Brasil, garantindo transparência, proteção aos investidores e o funcionamento eficiente das operações. A autarquia cria normas, supervisiona empresas e atua para prevenir fraudes. Enquanto esteve à frente de processos na CVM, Lobo já foi alvo de críticas do mercado por decisões vistas como politicamente influenciadas e pouco técnicas, especialmente em casos envolvendo a Ambipar e o Banco Master. Agentes apontam riscos de favorecimento a empresas específicas, mudanças de voto em processos sensíveis e a percepção de que sua gestão poderá comprometer a governança e a credibilidade da instituição. O julgamento da Ambipar, em particular, gerou forte reação no mercado, com analistas considerando a decisão de Lobo favorável à companhia em detrimento da transparência. No caso do Banco Master, durante sua gestão interina, o diretor freou decisões desfavoráveis à instituição e a empresários próximos ao Centrão, postura vista como um sinal de alinhamento político que aumenta a insegurança entre investidores.
O Brasil chocou-se ao constatar que o crime organizado havia penetrado no setor financeiro por meio de corretoras. Agora, aliado ao Centrão, ele parece avançar sobre as instituições que regulam e controlam o mercado. O problema é de extrema gravidade e configura-se como mais uma herança maldita deixada pela gestão de Jair Bolsonaro e seus associados ao país. Essa penetração do PCC no mercado financeiro e a colocação de nomes como Otto Lobo em posições de comando ocorreu no governo Bolsonaro. Ele entrou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em janeiro de 2022, quando foi nomeado diretor da autarquia pelo então presidente Jair Bolsonaro. Em julho de 2025, após a renúncia de João Pedro Nascimento, ele assumiu interinamente a presidência da CVM e deputados do Centrão caíram em campo para defender sua nomeação definitiva.
*Alexandre Rands Barros - Economista