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Saudade da Guerra Fria

Que saudade da bomba H

Felipe Sampaio

Publicado: 09/01/2026 às 09:23

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou em 29 de novembro de 2025 que o espaço aéreo sobre e próximo à Venezuela deveria ser considerado fechado, a mais recente escalada em um impasse com o líder de esquerda Nicolás Maduro. (Foto de Juan Barreto e Andrew Caballero-Reynolds / AFP)/ AFP

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou em 29 de novembro de 2025 que o espaço aéreo sobre e próximo à Venezuela deveria ser considerado fechado, a mais recente escalada em um impasse com o líder de esquerda Nicolás Maduro. (Foto de Juan Barreto e Andrew Caballero-Reynolds / AFP) ( AFP)

Que saudade da bomba H. Durante a Guerra Fria, o pior que podia lhe acontecer era “dormir vivo e acordar morto”. Porém, sem xingamentos. De um tempo pra cá a coisa desandou.

O perigo descivilizatório agora são as rajadas verborreicas. A última veio de um conselheiro ianque que disparou a esmo um “fuck you, Lula”. Até o comandante Che (que não era conhecido propriamente pela sua delicadeza) sabia que é melhor endurecer sem perder o gingado jamais. Comércio internacional depende de equilíbrio.

Bons tempos aqueles. Havia uma certa elegância nas personagens. O então secretário de Defesa americano Robert McNamara, por exemplo, era capaz de despejar milhares de toneladas de bombas sobre o Vietnã sem assanhar um fio sequer do seu penteado estilo James Bond. Já o secretário de Estado Henry Kissinger cumpriu o papel de turma-do-deixa-disso na Guerra do Yom Kippur sem macular o terno caro com a poeira do Sinai. Palavrões, nem pensar. Não é bom para os negócios.

Hoje em dia os caras chutam a porta de trás de um país, rebocam o presidente por crime comum, matam umas cem pessoas, provocam o maior fuzuê geopolítico e, se alguém reclamar do barulho, aparece um assessor com cara de ressaca mal curada, distribuindo “vá se F” ao vivo e a cores. Duvido que o almirante Yamamoto tenha armado um barraco desse nível quando Roosevelt reclamou do ataque a Pearl Harbor. Do jeito que a coisa vai, se Chico Buarque for a Whashington, vai “perder a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais”. Só “malandro com aparato de malandro oficial, gravata e capital”.

Acontece que não se faz política nem negócios sem um mínimo de regra e de categoria. Destempero em se tratando de relações exteriores é voo de galinha. Basta lembrar de Napoleão e Hitler (fogo de palha que fez um estrago danado, mas apagou ligeiro).

Não é a primeira vez na história que governantes confundem a caixa de pandora com a galinha dos ovos de ouro. Ansiosos por tesouros, libertam pragas e demônios indomáveis. Desencadeiam processos caóticos, sem desfecho previsível. Economia é um jardim que precisa de cuidado e tempo pra prosperar. O agravante dessa vez é que a humanidade não pode se dar ao luxo de congelar os processos globais de degradação estrutural que se encontram em curso, como a mudança climática, a desigualdade social e o crime organizado. Felizmente, os mercados tradicionais aprenderam com a China a respirar fundo com um olho no gato e outro no peixe.

O Brasil acertou ao longo do século 20 ao adotar uma escola diplomática e um pensamento de Defesa baseados no modelo multilateral pós II Guerra. Tudo caminhava para um mundo globalizado, baseado numa convivência colaborativa entre os povos, alinhavada pelas Nações Unidas, a OMC, OCDE, os Bancos de Desenvolvimento, União Europeia, Mercosul, G20, entre outros. Foi uma boa aposta. Teria sido, realmente, o melhor caminho para nós e para o mundo.

No entanto, o vento mudou. E já ensinavam os romanos, nenhum vento é bom quando não se sabe aonde ir. Não foi culpa desse ou daquele governo. O fato é que a sociedade e o mercado brasileiros (e, consequentemente, o Estado) não aproveitaram nossos 200 anos de existência para colocar de pé uma Política e uma Estratégia de país. Sem repaginarmos nossa visão de futuro (soberania, defesa, segurança, economia, sociedade e tecnologia), vamos ouvir outro “fuck you” quando pedirmos a palavra.

Felipe Sampaio - Cofundador do Centro Soberania e Clima; sócio da Terra Consultoria; atuou em grandes empresas e programas multilaterais (Banco Mundial, ONU/PNUD, BID e OEA/IICA); dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi Secretário-Executivo substituto no Ministério do Empreendedorismo e Microempresa; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; foi empreendedor em mineração; presta assessoria à presidência do Ibram.

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