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A equação desequilibrada: graduação, residência e o futuro da força de trabalho médico no Brasil

Nas últimas duas décadas, o ensino médico brasileiro sofreu uma transformação radical

Eduardo Jorge da Fonseca Lima

Publicado: 06/01/2026 às 08:58

O Brasil não precisa apenas de mais médicos, mas de médicos melhores/Foto: freepik

O Brasil não precisa apenas de mais médicos, mas de médicos melhores (Foto: freepik)

 Nas últimas duas décadas, o ensino médico brasileiro sofreu uma transformação radical. Impulsionado por políticas de expansão e pela demanda do mercado privado, o Brasil conta hoje com cerca de 400 escolas médicas, oferecendo mais de 45.600 vagas anuais. Estima-se que, em breve, o país formará mais de 44.000 novos médicos por ano.

Esse crescimento quantitativo na graduação colide frontalmente com a infraestrutura da pós-graduação. Embora o número de vagas de acesso direto (R1) tenha subido para cerca de 26.800, cria-se um déficit matemático severo: cerca de 40% a 50% dos novos médicos não ingressarão efetivamente na Residência Médica, gerando uma massa de generalistas disputando o mercado de trabalho.

O impacto é geográfico e social. A graduação isolada falha em fixar médicos no interior, enquanto a Residência Médica atua como verdadeira “âncora geográfica”: cerca de 65% a 70% dos médicos permanecem na região onde se especializaram. O atual descompasso com faculdades no interior sem hospitais escolas adequados e sem vagas de residência, perpetua o êxodo para as capitais, esvaziando as áreas que mais precisam de assistência qualificada.

É preciso reconhecer o esforço recente do governo federal em corrigir rotas com incentivos à residência. Contudo, a velocidade de abertura de novas escolas foi avassaladora, mantendo o sistema em alerta. Para os que ingressam, o preço é alto: a prevalência de Burnout supera a da população geral. A “conta” da saúde mental não deve ser paga pelo residente; instituições e preceptores precisam ser porto seguro, não fonte de adoecimento.

Há ainda um componente sociológico crucial: o perfil da Geração Z. O imediatismo e a necessidade de quitar dívidas estudantis (FIES) colidem com a longa jornada e a baixa remuneração da residência. As redes sociais vendem a ilusão de sucesso rápido sem especialização, levando jovens talentosos a desistir da formação em troca da monetização imediata, com riscos de estagnação técnica e desvios bioéticos. Cabe aos gestores abandonar o discurso nostálgico do “na minha época” e exercitar a empatia, acolhendo angústias legítimas de um tempo dominado pela exposição digital.

Neste cenário, a Inteligência Artificial (IA) surge como aliada na precisão, mas a residência deve ensinar o limite da máquina: a tecnologia jamais substituirá a empatia e a humanidade, essências da medicina. O equilíbrio entre “ensino” e “assistência” — tensão secular descrita por William Osler na Johns Hopkins — precisa ser mantido. O residente deve ser responsável pelo paciente para se tornar especialista, sem que isso signifique exploração da força de trabalho.

Não basta diagnosticar; é preciso intervir. Para reverter o desequilíbrio e garantir a qualidade do SUS, propõem-se medidas estruturantes:

• Aumento substancial da bolsa: valorizar a dedicação na residência frente ao mercado de plantões.
• Incentivos reais (Cashback do FIES): abatimento agressivo da dívida para residentes em áreas prioritárias.
• Profissionalização da preceptoria: criar estímulo para a preceptoria e treinamento docente para quem ensina.
• Certificação rigorosa: a CNRM deve fechar programas que funcionam apenas como mão de obra barata.
• Apoio psicossocial: núcleos de saúde mental institucionalizados.

Com correções estruturais, poderemos resgatar a essência da formação. Como alertam William Osler e Kenneth Ludmerer, a residência não é apenas treino de habilidades, mas o período crítico onde se forja a “alma profissional” do médico. A solução exige um grande pacto nacional envolvendo Ministérios da Saúde e Educação, CNRM, CFM, universidades e sociedade.

O Brasil não precisa apenas de mais médicos, mas de médicos melhores. Sem integrar a graduação à residência, continuaremos a formar profissionais em escala industrial, falhando na entrega de uma saúde de qualidade.

Eduardo Jorge da Fonseca Lima - Superintendente de Ensino, Pesquisa e Inovação do Imip, Conselheiro Federal pelo estado de Pernambuco (CFM) e Presidente da ABRAHUE

 

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