Os Tapetes Casa Caiada: 60 anos depois
O ano de 2026 começa com uma data fundamental para o calendário e para a memória dos movimentos culturais pernambucanos: os 60 anos de criação dos Tapetes Casa Caiada
Publicado: 05/01/2026 às 08:07
Tapetes Casa Caiada (Foto: Reprodução/Instagram @tapetescasacaiada)
“Quanto mais o símbolo for arcaico e profundo (...), mais se torna coletivo e universal. Quanto mais abstrato, diferenciado e específico, ao contrário, mais se aproxima da natureza das particularidades.” — C. G. Jung
O ano de 2026 começa com uma data fundamental para o calendário e para a memória dos movimentos culturais pernambucanos: os 60 anos de criação dos Tapetes Casa Caiada. Trata-se de uma iniciativa com profundo reflexo social entre famílias de baixa renda, nascida do talento de uma geração de artesãs suburbanas do Recife. Pioneiras no Nordeste, essas mulheres criaram, individualmente ou em coletivo, os famosos tapetes ornamentais que hoje são sinônimo de sofisticação e tradição. Tudo se deve — e é recordado com carinho — ao empenho visionário e à confiança no futuro depositados pela senhora Maria Digna Pessoa de Queiroz, falecida recentemente no Recife. Seu trabalho, em parceria com a senhora Edith Pessoa de Queiroz, tornou-se conhecido pela rica qualidade artesanal após enfrentar tempos de grandes desafios.
Nenhuma peça era exatamente igual à outra. Utilizavam-se materiais locais e processos de baixo impacto ambiental, resultando em um produto que carregava a identidade cultural das mulheres da nossa região. Cada nó e cada cor encerravam um significado profundo e simbólico. Com o tempo, surgiram novas linhas: Geométrica, Étnica, Animal Print, Floral e Infantil.
Daí nasce o meu interesse em prestigiar e defender a preservação contínua desse patrimônio. Confesso: detenho-me a olhar esses tapetes — os da Casa Caiada, sob a inspiração do Movimento Armorial de Ariano Suassuna, e os de Lagoa do Carro —, fascinado pelo experimentalismo das cores e pelo simbolismo multifacetado de suas tramas. Não é de hoje que os nossos tapetes ornamentais figuram em minhas cogitações de cronista. No Conselho Estadual de Cultura, do qual fui titular, muitas vezes me pronunciei em sua defesa, salientando a importância desse movimento como patrimônio cultural para o nosso Estado. Recentemente, dias antes do falecimento de Dona Maria Digna, manifestei por meio das redes sociais o desejo de entrevistá-la. Sei que minhas mensagens foram lidas, mas a fatalidade do destino impediu o encontro. Eu desejava expressar não apenas minha admiração pelo seu trabalho heróico, mas também compartilhar a notícia de que os tapetes ornamentais de Arraiolos (Portugal) foram oficialmente reconhecidos como Patrimônio Imaterial pela UNESCO há poucos dias.
Os tapetes alentejanos alcançaram essa honraria por seus desenhos intrincados e pela influência de estilos acumulados ao longo dos séculos — de padrões mouriscos e orientais ao barroco e rococó.
A UNESCO já reconhece técnicas tradicionais de tecelagem como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, sublinhando sua relevância para a memória coletiva global. Esse selo não é meramente um prêmio de estética, mas um compromisso com a transmissão de saberes, garantindo que mestres tecelões sigam ensinando aprendizes. Em Arraiolos, até hoje, a tecelagem é acompanhada de orações e cânticos, visando trazer sorte e prosperidade a quem os utiliza. Que o exemplo português ilumine o destino e a preservação do nosso tesouro Casa Caiada.
Marcus Prado*
*Jornalista