O perigo de não reconhecer a violência contra a mulher
Muitas mulheres sabem que a violência contra a mulher existe, mas têm dificuldade de identificá-la quando acontece dentro da própria vida
Publicado: 16/10/2026 às 06:43
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Cerca de 25 milhões de brasileiras viveram situações de violência no último ano, sem reconhecê-las como tal. O número impressiona não apenas pela dimensão, mas principalmente pelo que revela. Muitas mulheres sabem que a violência contra a mulher existe, mas têm dificuldade de identificá-la quando acontece dentro da própria vida.
Os dados foram divulgados em agosto pelo DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência. Uma em cada três brasileiras relatou ter vivido alguma situação de violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa. Apenas 4% se reconheceram espontaneamente como vítimas, enquanto outros 29% relataram situações concretas de violência sem identificá-las dessa forma.
O problema é que muitas formas de violência ainda são confundidas com comportamentos próprios de uma relação. O ciúme excessivo, controle, humilhações e proibições vão sendo tolerados e, quando a mulher não percebe que essas condutas também são violência, pode não enxergar a necessidade de procurar proteção.
Em Pernambuco, os números do feminicídio tornam esse alerta ainda mais grave. Segundo a Secretaria de Defesa Social, o estado registrou 88 feminicídios em 2025. Dessas mulheres, 68 não tinham registrado queixa anterior de violência doméstica. São 77% das vítimas, quase oito em cada dez.
No Rio Grande do Sul, o Mapa do Feminicídio 2025, da Polícia Civil, revelou uma proporção semelhante. Três em cada quatro vítimas não tinham registro policial anterior relacionado à violência doméstica.
Isso não significa que elas não percebessem a violência. Medo, ameaças, dependência emocional ou financeira e esperança de mudança também podem impedir uma mulher de procurar ajuda. Contudo, os números mostram que muitas chegaram ao desfecho mais grave sem registro policial anterior.
Combater o feminicídio começa muito antes do assassinato. Inicia quando uma mulher consegue reconhecer como violência aquilo que, por tanto tempo, aprendeu a suportar.
15 mulheres são internadas por dia após violência doméstica
Todos os dias, pelo menos 15 mulheres são internadas em hospitais brasileiros em consequência da violência doméstica. O dado é de um estudo da Unifesp, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, que analisou 90.798 internações registradas no SUS entre 2008 e 2023.
Muitas dessas mulheres chegam ao hospital com politraumatismos e ferimentos graves. Em alguns casos, as lesões se assemelham às encontradas em vítimas de acidentes. É a dimensão física de uma violência que muitas vezes permanece escondida dentro de casa.
O estudo reforça algo que não podemos ignorar. Violência doméstica não é apenas questão policial ou jurídica. É também um grave problema de saúde pública.
O hospital pode ser um dos primeiros lugares onde essa violência se torna visível. Por isso, identificar seus sinais, acolher a vítima e encaminhá-la para a rede de proteção pode significar muito mais do que tratar uma lesão. Pode evitar que ela volte ainda mais ferida.
O preconceito contra as mulheres no futebol ainda não acabou
O futebol avançou na participação feminina, mas ainda precisa aprender a conviver com mulheres em posições de autoridade.
Quando um homem erra, sua competência é questionada. Quando uma mulher erra, muitas vezes sua presença naquele espaço é colocada em dúvida. Essa diferença revela a persistência do preconceito.
Os números ajudam a compreender o desafio. Segundo dados apresentados pela CBF à Câmara dos Deputados, em dezembro de 2025, apenas 134 dos 734 profissionais de arbitragem no país eram mulheres, aproximadamente 18%.
O preconceito também aparece nas atitudes. Em 2022, a árbitra Edina Alves sofreu ofensas discriminatórias da torcida do CRB, episódio que resultou em punição ao clube pela Justiça Desportiva. Outro exemplo surgiu quando foi anunciada a participação do primeiro trio feminino de arbitragem na Copa do Brasil masculina. Uma pesquisa acadêmica identificou comentários preconceituosos nas redes sociais, questionando a competência das profissionais antes mesmo de entrarem em campo.
Durante décadas, mulheres precisaram demonstrar preparo e capacidade para exercer funções tradicionalmente masculinas. Ainda assim, um equívoco podia ser tratado como prova de incapacidade de todas elas.
É importante reconhecer os avanços. Hoje, mulheres arbitram partidas importantes, comandam equipes e ocupam posições de destaque. Entretanto, conquistar espaço não significa necessariamente conquistar respeito.