Sem aperto, o desperdício se eterniza
Expandir gastos sem medir resultados não corrige rotas, apenas normaliza a ineficiência
Publicado: 03/11/2026 às 07:17
Ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, durante audiência pública em Três comissões da Câmara em julho de 2025. (Lula Marques/Agência Brasil)
O Brasil tem o Estado mais ineficiente do mundo, aponta o Índice de Retorno Sobre os Impostos, do IBPT, que cruza a relação entre desenvolvimento humano e tributos considerando os 30 países de maior carga tributária. Por que cobramos tantos impostos e não somos capazes de aproveitá-los da melhor forma?
Em agosto de 2023, a ministra Simone Tebet fez uma pergunta que deveria tirar o sono de Brasília. Por que, das 60 políticas públicas avaliadas pelo governo federal, que movimentaram mais de R$ 1 trilhão, nenhuma havia sido redesenhada, cancelada ou substituída? Ela mesma respondeu: faltou coragem. A resposta é verdadeira. Mas incompleta. Faltou também senso de necessidade.
O Brasil não sofre de falta de diagnóstico. Desde 2019, um conselho interministerial avalia programas federais e emite recomendações. Desde 2021, a Constituição obriga a administração a avaliar suas políticas e divulgar os resultados. Em 2017, o Banco Mundial estimou que a revisão de políticas em vigor poderia economizar até 8,4% do PIB. Só no ensino básico, daria para gastar o equivalente a 1% do PIB a menos mantendo o mesmo nível de serviço. Os relatórios existem. O que não existe é consequência.
A desoneração da folha é exemplar. Avaliações do próprio Ministério da Fazenda não encontraram evidência robusta de geração de empregos. Criada em 2011 como medida temporária, foi prorrogada sucessivamente, por governos de todas as cores. Segue em regime de transição gradual. E não se espante caso volte a crescer no lugar de ser extinta. A evidência raramente tem lobby.
Nossa cultura política é de acomodação. Cada programa tem um grupo organizado que ganha com ele, e a conta se espalha por milhões que nem percebem. Rever é comprar briga. Manter parece de graça, ao menos para quem decide. Com dinheiro sobrando, ninguém precisa escolher: soma-se o novo ao velho, e o ineficiente sobrevive ao lado do necessário.
Por isso, a tese da expansão fiscal é tão sedutora quanto equivocada. Na última semana, o ministro Guilherme Boulos chamou de "chantagem do mercado" a cobrança por ajuste. Defendeu cortar privilégios, citando quase R$ 600 bilhões por ano em desonerações. Acerta no alvo. Erra no método. Sem uma restrição orçamentária real, nenhum governo enfrenta quem vive de privilégios.
Gastar mais não corrige rotas. Só amplia o desperdício. Por isso, gasto público no Brasil é como unha: tem que cortar sempre. Porque o ajuste fiscal também é instrumento de aperfeiçoamento da gestão. É quando o orçamento aperta que a pergunta deixa de ser simplesmente "quanto precisa a mais?" e passa a ser "o que realmente funciona?".
O dinheiro do imposto pertence ao cidadão, não a quem chegou primeiro ao orçamento. Avaliar impacto precisa deixar de ser burocracia de relatório e virar critério de sobrevivência. Coragem, como disse a ministra, é indispensável. Mas a história brasileira mostra que ela só aparece quando o dinheiro acaba.