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com Mano Ferreira

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Direita precisa se libertar do bolsonarismo

Na democracia, a oposição é tão importante quanto o governo. Enquanto Flávio foge de seus problemas com justiça, Tarcísio se apresenta como líder disposto a ocupar o vácuo

Mano Ferreira

Publicado: 28/10/2026 às 14:57

O ex-presidente Jair Bolsonaro e o seu filho, o senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro/Mateus Bonomi/AFP

O ex-presidente Jair Bolsonaro e o seu filho, o senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (Mateus Bonomi/AFP)

Todo regime político tem governo, mas só a democracia guarda um papel essencial para a oposição dentro do seu desenho. É ela quem fiscaliza o exercício do poder, cobra explicações e tenta oferecer uma alternativa melhor. A concorrência entre diferentes grupos partidários é um combustível para o aperfeiçoamento contínuo do jogo democrático e das políticas públicas. Dois dias após perder a eleição, a direita brasileira se depara com uma bifurcação e precisará escolher um caminho.

Existe a porta dos fundos. Na segunda, Flávio Bolsonaro prometia liderar a oposição durante o quarto mandato de Lula. No mesmo dia, foi intimado a entregar os passaportes num inquérito que apura suspeita de lavagem de dinheiro – por ironia trágica, a ordem partiu de Alexandre de Moraes, cuja possibilidade de investigação por suspeita semelhante segue paralisada após pedido de vista de Flávio Dino. Na terça, o ex-candidato a presidente sumiu. Nem os aliados sabiam onde estava. Horas depois, veio a confirmação: rumo aos Estados Unidos, onde já vive o irmão Eduardo. O candidato que recebeu 59,8 milhões de votos não ficou para defendê-los. Nem para se defender. Mostrou que há filhos da pátria que fogem à luta.

Há boas razões para questionar o ministro Alexandre de Moraes, e esta coluna o fez muitas vezes. Em um Estado democrático de direito, ainda que cheio de falhas, a resposta a um tribunal é advogado, recurso e argumento. Além de reformas institucionais e do devido contrapeso do Senado, cuja nova composição terá grande bancada do PL. Em lugar do caminho democrático, quem foge transforma o discurso de perseguição em confissão de desconfiança na capacidade de se defender e liderar o país rumo a melhores futuros.

Existe a porta da frente. Reeleito no primeiro turno com 63% dos votos válidos, Tarcísio de Freitas gravou um vídeo reconhecendo o resultado e pedindo uma "oposição vigilante". Falou em ministérios técnicos, corte de gastos, menos impostos, saúde, educação e saneamento básico. Chamou isso de "projeto de país". Sobre a fuga de Flávio, silêncio.

É o tom de quem quer liderar. E o vácuo é real. Jair Bolsonaro em prisão domiciliar. Eduardo e Flávio fora do país. Enquanto isso, o PL sai das urnas com as maiores bancadas da Câmara e do Senado, além de seis governadores. Força institucional não falta para construir uma oposição firme e consistente. Falta quem a use para fazer política de verdade, e não para alimentar narrativas de martírio como escudos contra a necessidade de prestar explicações sobre comportamentos provavelmente inexplicáveis.

Lula inicia um quarto mandato sem possibilidade de reeleição, com uma esquerda que pode se fragmentar na disputa pela sucessão. O cenário tende a ser favorável para a alternância. Mas qual?

A direita tem agora uma escolha. Será oposição de plenário ou de exílio? De projeto ou de ressentimento? De quem disputa o futuro ou administra a mágoa do passado? De quem deseja enriquecer o país ou apenas a própria família?

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