Vitória histórica, desafio imenso
Vitória histórica, desafio imenso
Publicado: 26/10/2026 às 16:02
O presidente da República reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva (Paulo Pinto/Agência Brasil)
Nunca antes na história desse país. Ontem, Lula se tornou o primeiro brasileiro a receber 4 mandatos para a presidência da República. E também o primeiro a virar uma disputa de segundo turno. Um feito gigantesco que, desde já, garante ao antigo líder metalúrgico um lugar privilegiado nos livros de história. Independente das avaliações e controvérsias sobre o mérito do seu legado, Lula é o maior líder da Nova República. Com seus vícios e virtudes, é, ao mesmo tempo, um produto e um protagonista legítimo da nossa democracia.
Destaco esse aspecto em primeiro lugar para sublinhar um outro significado que sua vitória adquirirá para a história. O triunfo de Lula representa a inédita manutenção na cadeia dos golpistas condenados pela trama autoritária liderada por Jair Bolsonaro. Numa República fundada por um golpe, com sucessivas rupturas de regime, é imperioso destacar que temos agora, diante de nós, a possibilidade de testemunharmos, ao fim do próximo mandato, a primeira transição geracional de elites políticas sem o trauma de uma ruptura democrática.
O fantasma autoritário, contudo, segue entre nós. Foi evidenciado pela incapacidade de Flávio Bolsonaro de reconhecer o resultado das eleições. Uma molecagem política de quem desrespeita a soberania do eleitor. Uma imediata traição de um compromisso de campanha, mentira derradeira de uma trajetória recheada de mentiras.
Será um erro trágico, contudo, caso o presidente Lula caia na tentação de considerar o recado do eleitor como uma consagração de sua gestão. A reprovação capturada pelas pesquisas foi expressa no primeiro turno. A avalanche da direita no Congresso demonstra uma decisão igualmente importante do cidadão brasileiro: a demanda por uma ampla reforma republicana do poder judiciário.
A virada eleitoral foi possível apenas com uma ampla mobilização da sociedade, sobretudo pela mobilização de jovens no auxílio ao engajamento e locomoção dos idosos. Um senso de urgência despertado pelos riscos representados pela volta da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Segue havendo, com clareza, uma demanda social por mudança.
Nesse sentido, não há espaço para apostas em confrontos institucionais sob a retórica populista de um Congresso supostamente inimigo do povo. O Congresso eleito é tão legítimo quanto o Presidente eleito.
Sendo assim, a missão recebida por Lula é governar com um legislativo majoritariamente hostil, exercitando seu poder de negociação. O dever democrático e constitucional será construir uma coalizão diversa, capaz de congregar forças políticas plurais, para além do petismo.
O quarto mandato terá a urgência de construir as bases de um processo de pacificação e sucessão, renovando as instituições em meio à grave crise de credibilidade. Lula será capaz de falar com a metade do país que votou contra ele? A generosidade do povo aposta que sim. O desafio é imenso.