A eleição mais disputada da história
Eleição decidida por um punhado de votos exige perdedores capazes de reconhecer a derrota e vencedores capazes de entender que não ganharam um cheque em branco
Publicado: 23/10/2026 às 15:12
Senador Flávio Bolsonaro e presidente Lula no primeiro debate das eleições de 2026 (Nelson Almeida/AFP)
Meio a meio. O Datafolha desta quinta cravou o que nenhuma pesquisa havia mostrado desde o primeiro turno: Lula e Flávio Bolsonaro empatados numericamente nos votos válidos. Nos votos totais, 47% a 46% para o senador. Uma semana antes, eram 47% a 45%. Brancos e nulos somam 5%; indecisos, 2%. A margem de erro é de dois pontos. O ponteiro se mexeu um único ponto, e mesmo assim mudou a manchete.
A Meio/Ideia vai na mesma direção: Flávio com 48% dos votos totais, Lula com 46%. Em votos válidos, 51,1% a 48,9%. Com margem de 2,5 pontos, empate técnico com vantagem numérica de Flávio. Mas o dado mais importante está em outra pergunta. 83,7% dizem que o voto já está decidido. Outro jeito de ler, mais importante a essa altura: sobram 16,3% que admitem mudar. Isso quer dizer que se o resultado de domingo for bem diferente, para qualquer lado, não será necessariamente um erro da pesquisa. A possibilidade de mudança está lá.
É importante se atentar ao momento da decisão. Perguntados sobre quando de fato escolheram seu voto no primeiro turno, 4,1% disseram ter decidido na véspera. 5,2%, no próprio dia. Impressionantes 9,3%, na hora de votar, diante da urna. Quase um em cada cinco eleitores só escolheu quando já não havia pesquisa capaz de captar a escolha. Esse detalhe é substancial. Um lembrete inequívoco de que, na eleição, soberano é o eleitor.
Pesquisa é fotografia, não profecia. Em 2022, a disputa mais apertada da nossa história democrática até agora, o Datafolha da véspera dava 52% a 48% para Lula nos válidos. Deu 50,9% a 49,1%. Dentro da margem. Ainda assim, sobrou acusação de manipulação contra os institutos e contra as urnas. E muita gente convicta de uma conspiração contra o seu candidato preferido.
O descrédito com as instituições de mediação e produção de conhecimento, como o jornalismo, a academia ou os institutos de pesquisa, alimenta um ciclo perigoso de irracionalismo. Deu no que deu: estradas bloqueadas, acampamentos na porta de quartéis e, no fim, o 8 de janeiro.
Desta vez, o cenário das pesquisas é ainda mais estreito. Se a diferença de 2022 foi de 1,8 ponto, a de domingo pode ser menor. Algumas centenas de milhares de votos podem decidir a Presidência. Ou as margens de erro podem ir para a tendência oposta. Quem sabe os 16% voláteis modifiquem sua tendência de voto.
E aí surge um problema. Eleição decidida por um punhado de votos exige perdedores capazes de reconhecer a derrota e vencedores capazes de entender que não ganharam um cheque em branco. Quem subir a rampa em janeiro vai governar sem aprovação de metade do país, diante de um Congresso que conhece essa aritmética melhor que ninguém. Cada reforma vai custar mais caro. Cada concessão, também.
Quem perde por pouco sempre encontra um motivo: a máquina pública, a pesquisa, a urna, o tribunal, a rede social. Domingo saberemos quem governa. Mas haverá alguém com grandeza para reconhecer a legitimidade do adversário?