O boleto que ninguém vai pagar
Flávio promete congelar dívidas e Lula trata ideia de ajuste fiscal como crueldade. Nenhum dos dois apresenta propostas para encarar o maior devedor do país: o próprio governo
Publicado: 20/10/2026 às 13:26
Todas as publicações citadas na reportagem publicada há quatro meses foram apagadas da conta de Flávio no X (AFP)
Toda promessa de perdão tem um credor escondido. No debate de domingo, na Band, tão marcado por ataques e esvaziado de propostas, Flávio Bolsonaro apresentou uma ideia: seu governo vai comprar as dívidas e dar prazos longos para a retomada dos pagamentos. Pessoas físicas ficariam seis meses sem pagar boleto. Empresas, um ano. Depois, parcelas módicas, de R$ 20 ou R$ 30.
Soa generoso. E familiar. No mesmo debate, Flávio criticou o Desenrola 3.0, programado criado por medida provisória de Lula, que também prevê a compra de dívidas pela União. É isso mesmo: após desqualificar o programa do governo, o líder da oposição promete, basicamente, uma versão turbinada do mesmo princípio. Sem apresentar nenhum detalhe de como sustentar a ideia.
A frase mais reveladora da noite foi outra: "Quando eu começar a ser presidente da República, a taxa de juros vai começar a cair de uma forma muito rápida". Tenho uma má notícia: sem um plano minimamente consistente de ajuste fiscal, não vai. Juros são definidos por um Banco Central autônomo, que olha para a inflação e para as perspectivas de longo prazo das contas públicas. A mudança de governo até pode trazer um humor melhor para o mercado, mas que rapidamente será revertido caso não haja medidas efetivas que confirmem a expectativa de controle das contas.
E aí mora o problema que ninguém quer enfrentar. O maior endividado do Brasil não é o trabalhador com o cartão atrasado. Nem o pequeno empresário sem capital de giro. É o próprio governo. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, R$ 11,1 trilhões. Só neste ano, os juros acrescentaram 6,5 pontos do PIB à conta.
O mecanismo é simples. Quanto mais o governo deve, e menos crível é o seu plano de controlar seus gastos, maior o prêmio cobrado para lhe emprestar dinheiro. Com a Selic alta, o crédito das famílias e das empresas também fica mais caro porque o Estado disputa o mesmo dinheiro. O governo endividado encarece a dívida de todos. Por isso, comprar boletos com mais dívida pública é prometer apagar um incêndio com gasolina.
Seria a hora de um debate sério sobre ajuste fiscal. Não há. A equipe de Flávio estudou um corte de até R$ 250 bilhões, mas o candidato promete reajuste de aposentadorias acima da inflação, manutenção das regras de gastos com saúde e educação e, agora, a compra de dívidas. Diz uma coisa ao mercado e outra ao eleitor. Lula responde com frases de palanque. Trata qualquer ajuste como crueldade. Como se a dívida descontrolada não roubasse o poder de compra do trabalhador.
O custo do silêncio vem depois. Ajuste que não é discutido na campanha perde legitimidade. Quem vencer no domingo vai encontrar a fatura em janeiro e terá de negociar cortes com um Congresso ávido por emendas. Sem legitimidade, o ajuste vira um custo político maior e acaba sendo desidratado. Ou simplesmente não vem. E a dívida segue crescendo.
O boleto que ninguém vai pagar já tem destinatário: o futuro do país. São nossos filhos e netos. É quem ainda nem abriu conta no banco.