6x1: lei para inglês ver desperdiça oportunidade
Sem estudos sérios de impacto econômico, aprovação de PEC pode ampliar informalidade e pejotização de trabalhadores, gerando precarização de quem desejava defender
Publicado: 15/10/2026 às 08:27
Na pauta, quinta e última sessão de discussão e votação, em primeiro turno, da proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1. (Carlos Moura/Agência Senado)
Ninguém precisa de estudo para saber que trabalhar seis dias e folgar apenas um é exaustivo. Não à toa, sete em cada dez brasileiros apoiam o fim da escala 6x1. O desejo é legítimo e deveria construir um projeto político ousado para a melhoria da qualidade de vida. Uma boa missão para a política. O problema é que resolveram fazer só a parte fácil. Surfaram no desejo e ignoraram o trabalho duro necessário para viabilizá-lo.
A ideia de que uma lei sozinha é capaz de transformar uma realidade precária parte da premissa de que escalas exaustivas são fruto de uma escolha perversa de exploração do patrão malvado. Como se não houvesse condições materiais a serem enfrentadas.
O indicador central nessa conversa é a produtividade. Quanta riqueza somos capazes de gerar com os recursos disponíveis? Atualmente, um brasileiro leva quatro vezes mais tempo para produzir na comparação com um americano. Quando migramos, convergimos. A conclusão é óbvia: o problema não é o trabalhador, mas o ambiente de negócios. Enquanto o mundo avança, a produtividade brasileira cresceu apenas 0,8% ao ano entre 1995 e 2024, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV.
A onze dias do segundo turno, o Senado aprovou ontem a tão aguardada PEC. Sem qualquer medida complementar. Queremos o resultado sem enfrentar as causas. Parlamentares defenderam os trabalhadores mais vulneráveis. Só não mencionaram os quase 40% na informalidade, sem direitos trabalhistas. Claro que seriam esquecidos: não tem representantes no Congresso. E qualquer alteração devolveria o texto à Câmara e adiaria a foto para a campanha.
Ninguém quis ficar de fora. Lula fez da PEC sua bandeira. O PL recalculou a rota. Flávio Bolsonaro votou a favor, apesar de especulações de que pode esvaziar a medida caso eleito.
O que ninguém quis fazer foi a conta. Declarar a boa intenção é mais fácil. A promessa mágica do governo é que a redução da escala virá sem danos, compensada pelo ganho de produtividade do descanso. Se fosse tão fácil, que tal lançarmos a escala 3x4, com três dias de trabalho e um feriadão toda semana? A resposta é óbvia: há custos.
Reformas estruturais bem feitas explicitam à sociedade os desafios necessários para alcançar o benefício desejado. Foi assim no Plano Real: para vencer a inflação, desejo geral do país, era preciso realizar uma série de mudanças, mais complexas, que melhoraram a governança fiscal e o rumo das contas públicas. Antes de mudar a moeda, tivemos outras etapas, como a aprovação do Fundo Social de Emergência, que desindexou uma série de despesas e abriu caminho para dar sustentação aos benefícios do Plano.
Poderia ter sido assim com o fim da escala 6x1. Imagine um cálculo sério sobre o impacto da mudança junto a um pacote de reformas pelo aumento da produtividade, com melhorias do ambiente de negócios reduzindo o Custo Brasil. Incluindo os informais, hoje invisíveis. Essa foi a oportunidade desperdiçada, em mais uma lei para inglês ver.