Lula e Flávio em disputa de vale tudo
Para reverter votos perdidos na Classe C, presidente lança perdão de dívidas e pix de R$ 5 mil para MEIs enquanto Flávio recalcula rota e anuncia apoio ao fim da escala 6x1, proposta que já havia classificado como oportunista e eleitoreira
Publicado: 14/10/2026 às 07:11
Lula e Flávio Bolsonaro (Marcelo Camargo/Agência Brasil e Evaristo Sá/AFP)
O quanto a pressão por resultados imediatos pode comprometer o futuro de um país? A pergunta é necessária em meio ao vale tudo protagonizado por Lula e Flávio Bolsonaro. Pelo que vimos nesta terça, nenhum dos dois pretende gastar tempo defendendo o que dizia até a semana passada. Ambos se mostram empenhados em renovar a velha máxima escrita por Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda do governo FHC: “No Brasil, até o passado é incerto”.
Até ontem, Flávio Bolsonaro dizia que a PEC para acabar com a escala 6x1 seria oportunista e eleitoreira. Bom, é mesmo. Assim como o voto a favor do projeto que será dado por Flávio. Ele recalculou a rota após visitar o pai. Motivo: "a maioria dos trabalhadores brasileiros quer". E completou: "quem vai pagar essa conta vai ser o governo". Quanto custa? De que forma será pago? Nada importa. Vale tudo pelo voto.
Contexto: o Senado deve votar a PEC ainda essa semana, sem qualquer estudo sério de impacto econômico e nenhuma garantia de que a aprovação produzirá o efeito pretendido na vida dos trabalhadores mais precarizados. É possível que não passe de mais uma “lei para inglês ver”, aumentando o divórcio entre a regra do Brasil formal e a materialidade do Brasil real. Com mais de 40% da força de trabalho na informalidade, a lei pode produzir o efeito de aumentá-la ainda mais. Assim como a pejotização, com possível explosão dos MEIs.
Esse público, aliás, virou objeto de desejo do presidente Lula. Há a percepção de que foi aí onde Lula perdeu votos em relação a 2022. Agora, o pacote Prospera MEI vai perdoar R$ 12,6 bilhões em dívidas de 3,6 milhões de MEIs com a União. E quem pagou o imposto certinho por todos esses anos? Vai ficar de otário mesmo.
O governo também anunciou um Pix de até R$ 5 mil, sem devolução. Exato: não é um empréstimo. É uma doação. Assim, do nada. Critérios de elegibilidade? Calendário? Nem sombra de satisfação. “O desenho está sendo estudado”, afirmaram as autoridades. O que se entrega agora é o anúncio. É que a lei eleitoral proíbe distribuir valores em ano de eleição, salvo programas já em execução. Prometer, ao que parece, cabe. No fim, tudo dependerá do Congresso. Mas a manchete foi garantida. E o prejuízo aos cofres públicos, também.
Detalhe inconveniente: não há qualquer previsão para esse gasto na proposta de orçamento do ano que vem, já enviada pelo governo ao Congresso. É puro improviso desesperado.
Só que o Brasil não termina em 25 de outubro. Quem vencer herdará em 2027 a conta das promessas irresponsáveis feitas agora, diante de um Congresso que sabe que elas foram pura moeda de campanha. E pode ter certeza: os parlamentares vão passar isso tudo na cara se alguém ousar falar em cortes nas emendas. Compromisso assumido na pressa custa caro na hora de governar.
Resta saber se o eleitor vai se reconhecer nesse espelho distorcido que lhe ofereceram. Ou se vai perceber que, quando tudo vale, nenhuma palavra vale muito.