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com Mano Ferreira

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Metralhadora eleitoral em busca da bala de prata

Proibição das bets, fake news religiosa, aumento do Bolsa Família e compra de dívidas. Lula atira para todos os lados, mas o tempo perdido não volta.

Mano Ferreira

Publicado: 28/09/2026 às 11:42

O presidente e candidato à reeleição pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva/© FOTO: RICARDO STUCKERT

O presidente e candidato à reeleição pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva (© FOTO: RICARDO STUCKERT)

Do reajuste do Bolsa Família ao Desenrola 3.0, a dificuldade eleitoral levou o presidente Lula a acionar o modo Silvio Santos. Imagine os nossos suados impostos em dobradura de aviãozinho. Quem quer dinheiro?

Pelos quatro anos de terceiro mandato, a resposta dominante foi o próprio Estado. O desejo de receita levou o governo Lula a instituir a famosa taxa das blusinhas. O apelido colou no então ministro da Fazenda: Fernando Haddad virou Taxad. Nessa fase, a regulamentação das bets foi implementada pelo prisma do apetite arrecadatório.

Às vésperas do reencontro com as urnas, desfazer suas próprias medidas de arrecadação virou um trunfo: o fim da taxa das blusinhas e a proibição das bets, de repente, viraram grandes atos de coragem do governo em defesa dos contribuintes, pobres e desvalidos. O tempo de arrecadar passou. A prioridade é continuar no poder.

As contas ficam pra depois. Agora vale tudo. Aberta a caixa de ferramentas, Lula distribui todo tipo de vantagem em busca de uma bala de prata capaz de destravar uma disputa congelada pela polarização. Só que quem dispara tanto, tão perto do alvo, para de mirar. Age por desespero.

Cada tiro de véspera acerta uma escolha anterior do próprio governo. Temer legalizou as bets em 2018, e elas ficaram quatro anos sem regra sob Bolsonaro. Mas foi Lula quem sancionou a regulamentação, em dezembro de 2023. O governo cobrou R$ 30 milhões de cada uma das 85 empresas autorizadas e arrecadou quase R$ 10 bilhões em tributos do setor em 2025.

O "câncer" inaceitável de hoje era a receita milagrosa ontem. E a cada nova despesa que surgia no debate, o governo sempre apontava o setor como uma espécie de vaca leiteira. Como financiar as mudanças da PEC da segurança? Uma taxa adicional sobre as bets. Até segunda ordem, o plano continua para o próximo mandato, mas a canetada eleitoreira acabou com a legalidade do mercado. Por enquanto. Como Medidas Provisórias têm prazo de validade, talvez a necessidade de arrecadar volte a falar mais alto após as urnas. Sabe como é.

A contradição não é apenas financeira. Também atinge os valores políticos mais profundos. Em 2022, a esquerda alertava contra a "fake news religiosa" de que o PT fecharia igrejas. Em 2026, a tropa governista passou a associar Flávio Bolsonaro a uma suposta manobra para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

O único projeto com esse objetivo é de 2007, arquivado no ano seguinte, não tem a digital do senador e nada em sua campanha permite afirmar algo nessa direção. A Justiça Eleitoral mandou derrubar os posts. No mesmo dia, a primeira-dama publicou uma foto de Lula segurando a imagem da santa. O vice-presidente Geraldo Alckmin publicou video indignado, garantindo defesa das “tradições católicas” contra os absurdos ataques das “noticias que circularam”. Terror religioso em nome da política. O sinal trocou. A tática, não.

Nada disso termina na urna. Ficam os custos e as cicatrizes. Para a próxima gestão e para a própria democracia.

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