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com Mano Ferreira

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Anestesia da lama vai cobrar a conta

Sem custo eleitoral para os escândalos e sem debates, mas inundado por overdose de informações, o eleitor vai às urnas sem saber o que foi feito nem o que será feito.

Mano Ferreira

Publicado: 25/09/2026 às 08:21

O presidente e candidato à reeleição pelo PT Luís Inácio Lula da Silva e o senador e candidato à presidência pelo PL Flávio Bolsonaro /Divulgação

O presidente e candidato à reeleição pelo PT Luís Inácio Lula da Silva e o senador e candidato à presidência pelo PL Flávio Bolsonaro (Divulgação)

Flávio Bolsonaro mente compulsivamente sobre sua relação com Daniel Vorcaro. Quando a imprensa evidencia a mentira, ele monta uma nova versão e segue em frente. Aprendeu com Lula. O presidente faz de conta que as provas da corrupção sob seu governo foram peça de ficção. Ambos se escandalizam com os crimes dos adversários. E tratam o cidadão como maluco ao abordarem o seu próprio entorno.

Só nesta semana, a revista piauí revelou que Flávio Bolsonaro voou da Flórida a Brasília, em janeiro de 2025, num jatinho que tinha Daniel Vorcaro como sócio. Em julho, o candidato do PL havia garantido: "Nunca entrei em avião de Vorcaro". Em maio, chamara de "mentira" o financiamento do Dark Horse pelo Banco Master, horas antes de surgirem áudios de sua voz cobrando pagamentos.

Já o presidente Lula viu novas revelações sobre a atuação da lobista Roberta Luchsinger, agora com contratos negociados no Ministério do Desenvolvimento Social. Ela é a pilantra que Lula nunca tinha visto, mas aparece em dezenas de fotos festivas ao seu lado, grande amiga de Lulinha.

O eleitor mal piscou. Logo após os áudios, o Datafolha registrou queda de Flávio de 35% para 31% no primeiro turno. Passou. Na pesquisas divulgadas nesta semana, Lula e Flávio aparecem em diversos cenários de empate, sempre muito distantes de todos os outros candidatos. Esse é o primeiro paradoxo: a lama não custa voto. Para nenhum dos dois.

Nunca tivemos tanta informação. Ao mesmo tempo, compartilhar uma verdade nunca pareceu algo tão distante da nossa vida coletiva. Sergio Bivar tratou do dilema, um dos grandes temas da nossa época, em artigo recente neste Diário. Indico a leitura.

Segundo paradoxo: o silêncio também não custa. Lula e Flávio faltaram ao debate da Band, em 23 de agosto, o primeiro debate sem os dois líderes nas pesquisas desde a redemocratização. O pool de onze veículos cancelou o encontro de 14 de setembro por falta de confirmação dos dois. A Record cancelou o que ocorreria neste domingo pelo mesmo motivo. No estúdio esvaziado da Band, Caiado resumiu: um tem o "Dark Horse", o outro, o "Dark Lobby".

A lógica é simples. A campanha virou um plebiscito de rejeições, em que basta não ser o outro. Se escândalo não tira voto, explicar-se só traz risco. O eleitor escolhe apenas quem odeia mais, e exerce o veto no lugar do voto. Nesse cenário, apresentar programa é desnecessário pra ganhar a eleição.

O problema aparece no dia seguinte. Quem vencer chegará ao Planalto sem mandato programático. Ninguém sabe qual ajuste fiscal, qual reforma, qual imposto foi aprovado nas urnas. Sem agenda legitimada pelo voto, resta negociar item por item com um Congresso que já conhece o preço de cada emenda. E o vencedor chegará carregando uma pilha de inquéritos e uma crise institucional de proporções sem precedentes.

Cenário perfeito para um governo, desde o primeiro dia, refém de um Congresso cada vez mais poderoso. Não importa quem vença. A anestesia passa. E a conta chega.

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