O Brasil não cabe no palanque de ninguém
Entre a biografia e a urna, Lula usou a tribuna mais nobre da diplomacia brasileira para fazer campanha eleitoral
Publicado: 23/09/2026 às 08:38
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Abertura do Debate Geral de Alto Nível da 81.ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas (Ricardo Stuckert)
A frase mais aplaudida de Lula na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, nesta terça, foi memorável: "O Brasil não cabe no quintal de ninguém". Uma bela afirmação da soberania nacional. Mas o Brasil também não cabe no palanque de ninguém. E recuperar a capacidade de formular um discurso político nacional que inclua a legitimidade da divergência é tarefa essencial para nossa democracia. Não foi a escolha de Lula.
Havia algo de despedida no ar. Se perder em outubro, terá sido a última participação de Lula na tribuna da ONU. Aos 80 anos, ele sabe que já não fala só para o plenário. Presidente mais longevo da Nova República, fala também para a história. Quer seu lugar no panteão dos estadistas, como porta-voz do Sul Global. Nunca escondeu essa pretensão.
Lula condenou "a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos". Com razão, diante de um Trump que celebra o controle do petróleo venezuelano, ameaça parceiros históricos e se orgulha de exercer o poder aplicando a primitiva lei do mais forte.
Minutos depois, sobre a Ucrânia, o presidente limitou-se a dizer que "não haverá vencedores no campo de batalha". Mas jamais desfez sua falsa simetria entre agressor e agredido. Neocolonialismo, para Lula, só tem sotaque americano. A indulgência com Moscou, diga-se, não é monopólio petista: Bolsonaro visitou Putin oito dias antes da invasão à Ucrania e afirmou ser solidário à Rússia. A defesa seletiva da soberania tem virado suprapartidária, contrariando a tradição histórica da nossa diplomacia.
Na vizinhança, a régua oscilou: a Nicarágua levou puxão de orelha por reprimir a oposição, mas Cuba foi retratada apenas como vítima do embargo americano, sem qualquer crítica à ditadura.
O quintal de casa também ficou por varrer. "Ninguém está acima da lei", disse. No mundo real, porém, segue sem se distanciar do ministro Alexandre de Moraes, até agora protegido de um início oficial de investigação dos graves indícios de corrupção com Daniel Vorcaro. O mesmo Lula que indicou ao Supremo seu advogado pessoal e seu ministro da Justiça, traindo promessas de campanha. O discurso é mais fácil do que a prática. Distância que degrada a credibilidade.
O momento mais revelador, porém, veio no fim. Lula definiu a eleição brasileira como uma escolha "entre democracia e negacionismo". Não há dúvidas sobre as credenciais golpistas do bolsonarismo. O problema é outro. Na democracia, superar a adesão eleitoral de um populista antidemocrático exige a capacidade de dialogar com seus eleitores, não simplesmente rotulá-los. Essa, afinal, é uma prática típica do populismo antidemocrático.
A tribuna de Oswaldo Aranha, tradicionalmente ocupada pelo Brasil na abertura dos trabalhos da Assembleia Geral da ONU desde 1955, não merecia ser convertida em horário eleitoral. Quem usa do espaço reservado à representação do Brasil para se apresentar ao mundo e ao eleitor como a única encarnação possível da democracia já começou a abandoná-la.