Uma dualidade cultural diante das instituições
As camadas do escândalo parecem uma novela, com núcleos narrativos para todos os gostos. Matadores de aluguel, articulação com autoridades, casos de amor e traição
Publicado: 21/09/2026 às 07:08
O depoimento servirá para confrontar Daniel Vorcaro com as provas reunidas pela PF, pelo MPF e pelo BC (Arquivo pessoal)
Ministro carnavalesco, pastor surubeiro, propina sexual. Mulheres vestidas de astronautas, degustação de charutos, festa de halloween com prostitutas suíças. Poderiam ser ecos de Nelson Rodrigues. Mas são anedotas da grave crise do Master. Os tentáculos corruptos por todo o espectro político, nas diversas vias da República, impressionam. Mas o que uma antropologia da máfia de Daniel Vorcaro seria capaz de revelar sobre o Brasil?
As camadas do escândalo parecem uma novela, com núcleos narrativos para todos os gostos. Matadores de aluguel, articulação com autoridades, casos de amor e traição. Há, sobretudo, um método de sedução. Vorcaro ostentava com hospitalidade.
Construía laços, fazia favores. Era tão deslumbrado quanto generoso. Depois cobrava reciprocidade, à medida em que adentrava círculos cada vez mais poderosos.
A lógica do compadrio não é nova. Com 300 anos de escravidão, nunca faltaram crimes e devassidão em nossas elites. O que nunca tivemos foram instituições capazes de punir criminosos poderosos. O escravismo cindia categorias práticas de cidadania: ao escravizado, sub-cidadão, a mão pesada do Estado. Ao senhor, garantias e defesa da honra, não importa o crime cometido. A obra da escravidão ainda não foi superada.
Deste mesmo Brasil patrimonialista emergiu um Brasil abolicionista, de impulso democrático. Ambos os vetores convivem entre nós, em dualismo complexo. Temos dificuldade de assumir. Gostamos de ver, nos nossos, a autoridade moral dos abolicionistas; e projetamos, sobre os outros, a sujeira do patrimonialismo. Na complexidade do mundo real, porém, as forças políticas compõem-se por ambos os vetores. A cada contexto, circunstância e interesse, o que predomina se alterna.
Veja o caso da Lava Jato. Após botarem ricos na cadeia, funcionários públicos concursados, em carreiras estáveis e bem remuneradas, assumiram certezas de salvadores da pátria, enveredando por uma série de erros. Uma continuidade do impulso democrático deveria ter corrigido os excessos preservando os avanços, sem fechar os olhos aos crimes comprovados.
Não foi o que vimos. Os erros processuais abriram a porta para forte reação patrimonialista. Após derrubar Lula, a operação chegou perto demais da cúpula do Judiciário. Então veio o desmonte das punições a poderosos.
Do outro lado, o golpismo bolsonarista engoliu o lavajatismo. A retórica democrática empoderou o STF, com a inédita condenação de golpistas, também cheia de atropelos. Foi a vez da vaidade se apoderar dos ministros salvadores da democracia. E agora, cá estamos, com um mar de lama sobre as togas.
A cada passo por isonomia, outra tendência de abuso coloca os avanços em risco. Nesse momento, mesmo comprando quem estava à venda, Vorcaro está preso. As forças patrimonialistas atacam em imensa coalizão. É a cultura que fala mais alto. Que parte de nós vencerá este capítulo, o compadrio escravagista ou o abolicionismo democrático?