° / °
Coluna

Contraponto Diario

com Mano Ferreira

COLUNA CONTRAPONTO DIARIO

Por credibilidade, Flávio devia renunciar

Candidato prometeu restaurar a credibilidade das instituições. Poderia começar seguindo o conselho que deu ao ministro Alexandre, puxando a fila dos enrolados com Vorcaro

Mano Ferreira

Publicado: 08/09/2026 às 08:58

Flávio disse que Alcolumbre estaria mais preocupado com a própria

Flávio disse que Alcolumbre estaria mais preocupado com a própria "autoproteção" do que com a defesa das instituições (Beto Barata/Agência Senado)

Do alto do palanque, neste 7 de setembro, Flávio Bolsonaro prometeu resgatar a credibilidade das instituições brasileiras. No chão, segundo levantamento da USP, cerca de 28 mil pessoas, a maioria de verde e amarelo. Portavam bandeiras do Brasil, imagens de Lula e Alexandre de Moraes vestidos como presidiários, além de bandeiras de Israel e dos Estados Unidos. Em destaque na multidão, um grande boneco inflável de Donald Trump, o presidente americano, retratado como uma espécie de super-heroi capturando o atual presidente brasileiro. Em pleno dia da independência.

Flávio chamou Alexandre de Moraes de "laranja podre" e disse que o Supremo precisa ser protegido de sua contaminação. Antes, em discurso no Senado, foi além: cobrou a renúncia do ministro, enrolado nas mensagens trocadas com Daniel Vorcaro, o banqueiro mafioso, atualmente preso pela maior fraude financeira da história do país. O pedido é justo. Seria ainda mais caso o autor fosse capaz de ouvi-lo diante do espelho. Afinal, é o sujo falando do mal lavado.

Em novembro de 2025, literalmente um dia antes da prisão do mafioso, Flávio Bolsonaro mandou a ele uma singela mensagem: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!". Luz, na verdade, significava dinheiro. Parte dos R$ 134 milhões prometidos para a família, em tese, produzir um filme sobre o patriarca.

Eis o nível de surrealismo: Flávio promete recuperar a credibilidade pedindo a queda de Moraes pela proximidade com Vorcaro. Proximidade muito semelhante à que ele próprio mantinha com o mesmo mafioso. É constrangedor escrever o óbvio: para construir credibilidade, é preciso honrar a própria palavra. Flávio, no entanto, prefere mentir seguidas vezes. E seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

Em março, dizia nunca sequer ter tido contato com Vorcaro. Em maio, quando o Intercept questionou sobre o financiamento para o filme, Flávio riu na cara do repórter e o acusou de mentir. Horas depois, flagrado em áudio cobrando pagamentos, confirmou o acordo. Em seguida, prometeu publicar uma prestação de contas detalhada. Comprovaria que todo o dinheiro do grande filantropo cultural teria sido exclusivamente utilizado na produção da obra de arte. Depois, descobrimos que os depósitos não foram para uma conta da produtora do filme, mas para um fundo gerido pelo advogado de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos. E até hoje, nada de prestação de contas.

Uma semana antes, Flávio desfilava vestido com uma estampa "o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula". Teria sido mais adequado: “O Pix do Master foi para Bolsonaro”. Parece comédia de mal gosto, mas é uma tragédia brasileira.

A provocação é simples. Se Flávio realmente acredita que se enrolar com Vorcaro compromete a instituição, deveria aplicar a régua em si mesmo. Cobrar renúncia dos outros se esquivando da própria responsabilidade não resgata credibilidade nenhuma. É apenas o mesmo problema, vestindo novas camisetas.

Mais de Contraponto Diario

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas