° / °
Coluna

Contraponto Diario

com Mano Ferreira

COLUNA CONTRAPONTO DIARIO

Colapso de liderança num país em crise

República agoniza em meio à falência de credibilidade enquanto Lula e Flávio falam apenas com suas próprias bolhas

Mano Ferreira

Publicado: 07/09/2026 às 08:16

Lula e Flávio Bolsonaro/SERGIO LIMA / AFP

Lula e Flávio Bolsonaro (SERGIO LIMA / AFP)

Chegamos aos 204 anos da independência com uma grave crise institucional instalada no país, com poucas perspectivas de solução. Em plena campanha eleitoral, é difícil encontrar brasileiros entusiasmados com o futuro do país. O clima nas ruas é de desilusão e cansaço. Não parecemos capazes de acreditar na construção de um rumo comum de felicidade.

No aspecto mais pragmático, há uma crise fiscal que gera efeitos no bolso de cada brasileiro. Contas públicas desarrumadas significam juros altos e aumento do custo de vida. 82% das famílias dizem ter algum tipo de dívida a vencer, maior nível da série histórica.

No fundo, contas públicas desequilibradas significam uma deficiência política: a incapacidade de construir consenso sobre prioridades. Na ausência de liderança consistente, promessas insustentáveis se acumulam instalando uma corrida egoísta, ao estilo da velha máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Nesse contexto, Lula e Flávio Bolsonaro falam apenas para suas próprias bolhas. Ambos apontam as conhecidas debilidades do outro lado, mas seguem incapazes de encararem suas próprias deficiências. A hipocrisia degrada a credibilidade da política. Problema ainda mais delicado diante da crise de confiança que atinge o judiciário, com as denúncias de corrupção contra o ministro Alexandre de Moraes.

Em pronunciamento oficial, Lula prometeu encaminhar uma reforma do judiciário no próximo governo. Mas em que termos? Não há sequer uma sombra de resposta. E muito menos um pedido de desculpas pela traição às suas próprias promessas. Não custa lembrar: Lula é o presidente com o maior número de ministros indicados ao STF. Dizia que não indicaria ministros por proximidade pessoal. Mesmo com o país hiperpolarizado, fez o oposto. E não parece minimamente constrangido com suas próprias escolhas.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro teve coragem de exigir a renúncia de Alexandre Moraes pelo envolvimento do ministro com Daniel Vorcaro, o banqueiro mafioso. Mesmo sem dar uma explicação minimamente séria sobre os R$ 134 milhões que recebeu do mesmo personagem. Fora da bolha mais fanática do bolsonarismo, todos sabem que a história do filme sobre seu pai não para de pé. Flávio cobra explicação do outro, mas não dá a sua.

Quando Planalto, Congresso e Judiciário competem para fingir gravidade sem encarar com seriedade os seus próprios erros, quem perde é a crença de que as instituições servem para algum princípio nobre além da simples disputa de poder.

O descrédito é geral. Mas não é inédito. Em 1914, Rui Barbosa fez um discurso que entrou para a história do Senado: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto". Mais de um século depois, parece própria para o Brasil de hoje.

Mais de Contraponto Diario

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas