Até onde vai o fenômeno Augusto Cury?
Escritor de sucesso chega aos dois dígitos nas pesquisas e ocupa o espaço da terceira via. Será que o Brasil, cansado da polarização, vai recorrer ao psiquiatra da autoajuda?
Publicado: 01/09/2026 às 06:40
Augusto Cury, candidato do Avante (ALOISIO MAURICIO/ESTADÃO CONTEÚDO)
Augusto Cury entrou pra valer na disputa presidencial. Pelo menos por enquanto. Talvez não dure muito. A Nexus/BTG mostrou Cury com 11%, fazendo dele o primeiro candidato fora da polarização a figurar com 2 dígitos desde Ciro Gomes, em 2018. Já o desempenho na AtlasIntel foi menos expressivo, de 7,8%, mas suficiente para confirmar uma tendência de crescimento que agora o coloca como terceiro lugar. É um feito e tanto.
Até ontem, apesar de ser um dos escritores de maior sucesso de vendas da história do Brasil, o psiquiatra Augusto Cury era considerado um candidato à presidência no terceiro pelotão. O primeiro tem Lula e Flávio, favoritos à disputa do segundo turno. O seguinte tinha os ex-governadores Ronaldo Caiado, de Goiás, e Romeu Zema, de Minas, além de Renan Santos, o líder do MBL, movimento que convocou manifestações pelo impeachment de Dilma, há 10 anos – aliás, campanha que foi suspensa ontem por decisão absolutamente controversa, com tons autoritários, do ministro Dias Toffoli.
O fato é que Cury vinha enquadrado no grupo dos nanicos, que não passam do 1%, como o Veterinário Wilson Grassi (Democrata), Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC), Samara Martins (UP), Hertz Dias (PSTU) e Rui Costa Pimenta (PCO). Sua presença nos debates e sabatinas na TV seria apenas uma obrigação legal comparável a Levy Fidelix, em 2014, ou Padre Kelmon, em 2022.
O debate da Band, que tradicionalmente abre a temporada de confrontos entre os candidatos, foi marcado pelas ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, numa atitude de desrespeito ao eleitor, como se o jogo já estivesse decidido sem a participação do cidadão. Renan Santos roubou a cena com radicalismos, prometendo um banho de sangue contra “inimigos da nação”. Augusto Cury se destacou justamente pelo oposto, mantendo a voz serena para afirmar que o radicalismo de Renan o “assombra”.
Desde então, Cury ganhou 2 milhões de seguidores e passou a receber depoimentos esperançosos de pequenos e médios influenciadores digitais. As buscas pelo nome dele no Google subiram 900% na semana seguinte. De imediato, surgiram suspeitas de uma movimentação orquestrada, algum tipo de coordenação profissional dos influenciadores combinada com a compra de seguidores falsos, como robôs com avatares indianos.
As pesquisas mostram que não dá pra reduzir tudo a uma manipulação das redes. Há engajamento de eleitores reais em torno de Cury. Sua candidatura precisa ser levada a sério.
Isso implica uma encruzilhada. Suas propostas e biografia passarão por um escrutínio rigoroso. Talvez isso leve a uma desilusão, conduzindo sua campanha a um vôo de galinha. Ou ele pode ganhar impulso, se espantar o fantasma da inexperiência no setor público. Será capaz de reunir um time com técnicos e políticos capazes de lhe conferir credibilidade? Resistirá aos ataques dos adversários? Ou será que o Brasil, cansado da polarização, vai recorrer a um psiquiatra da autoajuda?