Do alto nível à baixaria, Pernambuco atrai atenção
Panfletos apócrifos, acusações de gabinete do ódio e propagandas oficiais atraem interesse nacional para a disputa ao Campo das Princesas
Publicado: 31/08/2026 às 06:23
Raquel Lyra e João Campos (Rafael Vieira e Sandy James/DP Foto)
“Estou com inveja dos pernambucanos. É de longe a dupla de opções mais qualificada do Brasil”. Recebi essa mensagem de um importante jornalista carioca durante o final de semana. O início do guia eleitoral chamou a atenção, Brasil afora, para a disputa que ocorre em Pernambuco. Nesse caso, pelos melhores motivos.
Raquel Lyra e João Campos são considerados políticos promissores da nova geração, com qualidade acima da média nacional. Ambos terão papel importante na reorganização do tabuleiro pós-Lula.
João sempre foi apontado como nome natural de renovação da esquerda e futuro presidenciável. Sendo assim, uma eventual vitória de Raquel após um governo bem avaliado pode credenciá-la como rosto a ser levado a sério para renovar o centro reformista, atualmente órfão no cenário nacional.
Nos círculos de marketing político e na imprensa especializada, o programa de estreia da governadora no guia eleitoral foi considerado o mais inovador do país. Em contraste com a aceleração das redes sociais, abriu com 23 segundos de silêncio, um respiro profundo na sala de casa, convidando o espectador para uma conversa olho no olho.
Há um tipo de força que só aparece na admissão de fraqueza. Tenho chamado essa conduta de vulnerabilidade protagonista. Não tem nada de vitimismo. Atua como contraposição clara à tendência marcada por Donald Trump, promessas de bomba atômica, líderes superpotentes e imbrocháveis. O chamado é mais honesto, porque assume a condição humana que nos une, convocando empatia e identificação.
A governadora falou do desafio de exercer o poder “no momento mais difícil da vida”, em clara referência à morte do marido, o empresário Fernando Lucena, em 2022. Disse que se entregou a Pernambuco, e Pernambuco entregou força de volta pra ela. Um tom de confissão pessoal, câmera fixa, comovente.
João Campos apostou no caminho oposto: a tradição. Superprodução ao estilo PSB, sua propaganda foi uma genealogia, com Miguel Arraes e Eduardo Campos. As obras tocadas durante sua gestão como prefeito do Recife foram usadas como evidência de que “nasceu para governar”. Ao fim, Lula pedindo votos.
Enquanto Raquel buscou falar da sua vulnerabilidade em comunhão com Pernambuco, João evocou sua herança e a relação com Brasília. São duas estratégias fortes, radicalmente diferentes.
Respondi a mensagem do meu amigo carioca com algumas contextualizações. De longe, se vê mais o discurso oficial e a capacidade de boa apresentação dos candidatos. De perto, não há como ignorar o submundo da campanha.
Primeiro, contei das acusações trocadas sobre gabinetes do ódio. Depois, dos asquerosos cartazes apócrifos associando Raquel a famosas mulheres que mataram seus maridos. Repugnante e misógino.
São as duas faces da política pernambucana. Temos potencial de inspirar o Brasil num processo de renovação em alto nível. Mas precisamos superar essa velha lama do submundo que ainda nos assola.