O paradoxo das creches de Raquel Lyra
Das 60 mil vagas prometidas como carro-chefe de campanha, quatro anos atrás, apenas 5% foram entregues pela gestão Raquel Lyra
Publicado: 26/08/2026 às 06:18
A governadora Raquel Lyra (PSD) (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)
Apenas 5% das 60 mil vagas prometidas como carro-chefe de campanha, quatro anos atrás, foram entregues pela gestão Raquel Lyra. Mesmo assim, a governadora consegue fazer da evidência inédita do tema uma vitória política. Mas por que a pauta travou? E como destravá-la? Perguntas necessárias na sabatina do Diario de hoje, às 14h.
Os números são desconfortáveis. Das 250 creches prometidas, o Governo entregou apenas 13 até agora. Das 60 mil vagas projetadas, pouco mais de 3 mil crianças são atendidas. 5% da meta, a 3 meses do fim do mandato. Para cumprir o prometido até 31 de dezembro, seria preciso inaugurar 41 unidades por mês. O recorde mensal da própria gestão, em junho, foi 4.
E, no entanto, é impossível falar de educação infantil em Pernambuco sem falar de Raquel Lyra. Esse é o primeiro paradoxo. Ao trazer para si uma pauta inédita, até então tratada como uma responsabilidade restrita das gestões municipais, a governadora pode assumir um erro de cronograma e, ainda assim, obter uma vitória política. Afinal, quando seu principal adversário é herdeiro do grupo que passou mais de uma década no poder antes dela, a pergunta é intuitiva: por que ninguém fez antes?
O problema escolhido é real. Pelos dados oficiais, a cobertura de creches chega a apenas 20% da demanda estimada pelo Plano Nacional de Educação. A maioria dos 184 municípios está em situação crítica desde sempre, sem que isso virasse prioridade na política estadual.
Há ampla literatura acadêmica comprovando que o investimento na primeira infância produz o melhor retorno social. James Heckman, vencedor do prêmio Nobel de economia, estima que 7 dólares são gerados a cada dólar investido no desenvolvimento infantil.
Desde a campanha, Raquel vinculou seu capital político ao tema. Prometeu assumir os custos de construção e do primeiro ano de operação. Isso porque as regras de distribuição do Fundo Nacional da Educação Básica consideram o número de estudantes matriculados na rede municipal no ano anterior. Na prática, o governo arca com o investimento, mas as vagas levam mais recursos federais ao prefeito. Talvez isso ajude a entender como, mesmo tendo dificuldades de articulação com a Alepe, Raquel atraiu o apoio da maioria dos prefeitos à sua reeleição.
Segundo fontes ligadas ao governo, mais de 170 creches estão com obras a todo vapor. A expectativa realista para o cumprimento total da promessa, com as 250 creches em funcionamento, é para meados de 2028.
Será hora do segundo paradoxo: conjugar o desejo de universalizar o acesso à creche com as mudanças demográficas. Nascem menos crianças a cada geração. Por isso, o modelo de gestão dos equipamentos e equipes precisa ter flexibilidade. Ou correremos o risco de transformar o melhor investimento possível em um desperdício de vagas ociosas. E não custa lembrar: dar acesso é a parte mais fácil. Restará o desafio da qualidade.