Disputas do Nordeste descolam de Lula
Apesar da grande vantagem do presidente Lula nas intenções de voto no Nordeste, candidatos a governador com seu apoio oficial não parecem repetir as performances
Publicado: 21/08/2026 às 08:10
Presidente Luís Inácio Lula da Silva ( Ricardo Stuckert/Divulgação)
Pernambuco, Ceará, Bahia. Nos três maiores colégios eleitorais do Nordeste, o fenômeno se repete. O presidente Lula segue com liderança folgada nas intenções de voto da disputa à presidência. Mas não transfere automaticamente a sua influência aos candidatos a governador que contam com seu apoio oficial.
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Em Pernambuco, Lula larga com enorme vantagem sobre Flávio Bolsonaro: 58% a 24%, segundo a pesquisa Real Time Big Data desta semana. Seu palanque oficial foi definido com clareza: João Campos (PSB). Mas a aprovação da governadora Raquel Lyra (PSD) consolidou um crescimento importante e diversos levantamentos mostram uma ultrapassagem contra o candidato do PSB.
Não é isolado. No Ceará, Lula tem 64% de aprovação na pesquisa Ipsos-Ipec. Mas o atual governador Elmano de Freitas (PT), seu candidato, perde de Ciro Gomes (PSDB) por quase 20 pontos: 52% a 33% no Datafolha, divulgado em 13 de agosto. A recente pesquisa AtlasIntel confirmou a distância.
Na Bahia, o desempenho de Lula na presidência é aprovado por 60% da população, segundo a Real Time Big Data da semana passada. Apesar disso, a mesma pesquisa mostra um empate técnico com vantagem numérica de 44% para ACM Neto (União) contra 42% do atual governador Jerônimo Rodrigues (PT). No início do mês, um levantamento da Paraná Pesquisas mostrou ACM Neto com impressionantes 10 pontos de vantagem (50% x 40%).
Como explicar esse fenômeno? Por que o presidente Lula não parece mais ter o mesmo poder de transferência de votos como cabo eleitoral de governadores no Nordeste?
O cientista político Murilo Medeiros, associado ao Livres, levanta uma tese interessante. A primeira explicação é geracional. Emergiu no Nordeste uma nova classe média urbana, mais sensível à inflação, ao custo de vida, à mobilidade e à segurança do que à simples nostalgia pela memória da ascensão social via programas de distribuição de renda. Nesse sentido, há um aumento da cobrança por mais resultados concretos, para além do mínimo social já consolidado nas últimas décadas.
A segunda é a lógica dupla do voto brasileiro. O eleitor distingue a disputa presidencial da estadual: vota no presidente pela identidade política, mas escolhe o governador mais guiado por pragmatismo. É a mesma gramática do chamado voto "Lulécio" mineiro de 2006 e do "Luzema" de 2022. E que também pode ocorrer, esse ano, como "Lularcísio" em São Paulo.
O que isso revela pode ir além. Tudo indica que estamos vivendo a última disputa eleitoral de Lula. E se os votos nordestinos para governador indicarem uma mudança estrutural no tabuleiro da política pós-Lula? Será que o cansaço da polarização pode produzir a aglutinação de um novo pólo político, claramente mais ao centro, quando Lula sair de cena? E o que sobra da polarização atual se isso acontecer?