A quem pertence o futuro das artes?
Da música ao audiovisual, ferramentas de inteligência artificial ampliam as possibilidades de criação, mas também despertam preocupações sobre o futuro do trabalho artístico
A linha que separava as distopias de “Black Mirror” do nosso cotidiano tornou-se cada vez mais tênue. Com o avanço da inteligência artificial (IA), compor uma música, desenvolver um roteiro cinematográfico ou criar uma ilustração passou a exigir apenas alguns comandos e poucos segundos de paciência.
A facilidade de acesso a esses recursos desperta o interesse de criadores experientes e iniciantes, mas também põe em evidência discussões sobre propriedade intelectual e a necessidade da criatividade humana em meio à automatização dos processos artísticos.
Em seus 201 anos de história, celebrados neste sábado (7), o Diario de Pernambuco testemunhou diferentes revoluções na maneira de criar, produzir e consumir arte. Agora, diante da escalada da IA generativa, um novo desafio se impõe ao universo cultural e inspira uma reflexão: a quem pertence o futuro das artes?
No YouTube, por exemplo, já existem canais dedicados à produção de músicas com inteligência artificial e, em alguns casos, conquistam até o selo de artista oficial da plataforma. É o caso do canal “Dark Country em Português”, que acumula mais de 3 milhões de visualizações com canções acompanhadas por vozes e imagens nitidamente artificiais.
Apesar de não sinalizar expressamente o uso da tecnologia, o canal reúne uma audiência que, aparentemente, não demonstra preocupação em saber quem, ou o que, está por trás do material. Nos comentários, predominam elogios às atmosferas e letras sombrias.
A receptividade a esse tipo de conteúdo levanta questionamentos sobre a concorrência entre profissionais e ferramentas generativas. Ao mesmo tempo, a chamada “exaustão digital” também desperta um movimento de valorização do que é genuíno e espontâneo.
“Quanto mais conteúdos gerados automaticamente ocupam as plataformas, mais as pessoas parecem valorizar aquilo que envolve intenção, tempo e até imperfeição. Isso se reflete no resgate do vinil, na procura por shows intimistas e na valorização de gravações mais cruas”, comenta Huayna Tejo, diretor de marketing do aplicativo Moises, que auxilia na prática, produção e criação musical com o uso de IA.
Criada pelo pernambucano Geraldo Ramos, a plataforma permite que o usuário envie uma música e utilize a inteligência artificial para separar seus elementos, isolando os vocais, a bateria, o baixo e outros instrumentos. Além de decompor gravações existentes, a ferramenta oferece recursos para gravar, editar e arranjar composições, transformar a própria voz e gerar instrumentos para desenvolver esboços. "
Não trabalhamos com a geração de músicas a partir de comandos de texto. Nossa tecnologia é voltada a quem já toca, canta ou compõe. Por isso, desenvolvemos parcerias com artistas e instituições como Berklee, Ableton e Fender, buscando garantir que nossas ferramentas atendam às necessidades reais de quem vive da música”, diz Huayna.
O projeto “Gunzito”, do ex-comediante e palestrante Murilo Gun, exemplifica uma das possibilidades de uso da inteligência artificial no fazer artístico. Incomodado com a falta de músicas que tivessem a duração adequada aos seus espetáculos, ele encontrou um caminho na tecnologia para criar esboços rápidos dos seus pensamentos. “Eu tinha as ideias, escrevia as letras e mandava para a IA. Por exemplo, escrevia uma letra e pedia um forró A ferramenta transformava aquela letra em uma música cantada naquele estilo”, conta.
O processo deu tanto certo que a brincadeira virou coisa séria: Gun montou uma formação robusta com nove músicos no palco — trazendo nomes de peso do rock e do samba — para criar um repertório autoral de pop acústico com intervenções filosóficas.
O projeto, que já passou por testes em casas lotadas de São Paulo e tem dez faixas gravadas em estúdio, se apresenta no REC'n'Play 2026, no Bairro do Recife, na próxima quinta-feira (12). “A IA me deu uma nova capacidade de fazer algo que antes não conseguia realizar sozinho. Mas isso não significa que todos os artistas devam seguir o mesmo caminho”, aponta.
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