° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Gigante na escala e denso no drama, ‘Godzilla Minus Zero’ é o filme de kaiju definitivo de uma era

Em cartaz a partir desta quinta-feira (5), continuação do épico japonês ‘Godzilla Minus One’ é mais, maior e ainda melhor do que o seu antecessor

Por André Guerra

Continuação de 'Godzilla Minus One' é ainda mais sombria que seu antecessor

Quando “Godzilla Minus One” foi lançado em 2023, o cinema japonês de monstros gigantes — o chamado ‘filme de kaiju’ — recuperou o poder sobre uma marca sua por excelência. Produzido pela Toho, estúdio responsável pelo longa original, de 1954, a produção fez história ao se tornar o primeiro filme de língua não-inglesa a levar um Oscar de Efeitos Visuais, feito ainda mais impressionante considerando o orçamento cerca de 15 vezes menor do que as últimas versões hollywoodianas. Agora, com “Godzilla Minus Zero”, o diretor Takashi Yamazaki dá um largo passo além e faz o que deve se tornar a grande referência do gênero nos próximos anos.

Já em cartaz, esta continuação se passa em 1949, dois anos após toda a devastação do filme anterior. O ex-piloto kamikaze Koishi (Ryunosuke Kamike), sua parceira Noriko (Minami Hamabe) e a pequena filha adotiva Akiko (Sae Nakatani) tentam reconstruir suas vidas, assim como o restante do Japão luta para se reerguer. Uma outra ameaça destruidora, no entanto, chega para acabar com o respiro da população, forçando o país a atrair novamente o Godzilla — desta vez como única solução possível para eliminar a criatura que se aproxima cada vez mais da cidade.

A parcela do público que não se importa com o gênero de kaiju deve estranhar a recepção tão entusiasmada diante dessas novas produções japonesas, especialmente depois de tantas incursões pouco memoráveis da franquia. Em tempo: são muitas as características que colocam tanto “Minus One” quanto “Minus Zero” à frente das demais encarnações contemporâneas da criatura. A que salta aos olhos é a ambientação do final dos anos 1940, com os cenários arrasados pela guerra, a aparelhagem carregada e analógica, as expressões contaminadas pelo trauma e pelo medo.

Reconhecidamente uma alegoria das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, o “Godzilla” de 1954 era um autêntico exemplar de horror. O assombro nuclear evocado pela presença do monstro, porém, foi gradualmente ressignificado pela adrenalina do entretenimento escapista do cinema norte-americano, sobretudo com o avanço da computação gráfica. Na prática, o peso da devastação virou apenas espetáculo.

Para além dessa dimensão histórica — que também respondia pela força do ótimo e não suficientemente comentado “Shin Godzilla”, de 2016 —, o design de produção de época, a fotografia sombria e a atenção à escala humana tornam a experiência de “Minus One” e, principalmente, de “Minus Zero” tão intensa que ela permanece muito após a sessão. Não há espaço para alívio cômico aqui, apenas para um senso palpável de antecipação, tragédia e, por que não, fascínio.

Takashi Yamazaki dá longos espaçamentos entre as aparições dos monstros porque elas vêm acompanhadas de consequências drásticas e visíveis. Ele jamais banaliza cada casa esmagada, construção em ruínas ou abertura de buraco no chão. Mesmo uma rajada de estilhaços provocada por uma explosão distante, elemento corriqueiro no cinema de ação ocidental, machuca os protagonistas e os civis.

Ciente do acúmulo horripilante de memórias de guerra que permeiam cada pessoa, “Godzilla Minus Zero” aumenta o volume da trilha sonora, composta por Naoki Sato, e estiliza as imagens de modo pontual e poderoso. Há, por exemplo, uma cena explosiva em Nova York que é resolvida em questão de segundos, através de uma câmera lenta que detalha o impacto literalmente nos rostos em volta.

É significativo que os filmes de Godzilla que melhor ecoem a relevância, a dimensão visual e o senso de urgência precisem retornar a um tempo histórico anterior até mesmo ao longa original. O Japão, afinal, não viveu apenas o horror da Segunda Guerra. Entre terremotos e tsunamis que devastaram o país desde 2011, a sensação de temor diante de forças incontroláveis impera mais do que nunca mesmo com toda a tecnologia arregimentada. “Minus Zero” entende isso tão bem que, desde o primeiro momento de projeção, mergulha fundo o espectador nas cinzas da insegurança, ao ponto de a simples sugestão da presença dos monstros ser capaz de gerar sobressaltos.