Manipulação da fé é tema da cinebiografia sobre o ex-pastor Mário Justino, destaque em Gramado
Dirigido por José Eduardo Belmonte e protagonizado por Christian Malheiros, filme narra a história surpreendente da ascenção e queda do ex-pastor da Igreja Universal
Uma história surpreendente mobilizou o 54º Festival de Cinema de Gramado, na Serra Gaúcha. Dirigido por José Eduardo Belmonte (de "Alemão" e "Uma Família Feliz") e exibido na competição de longas-metragens brasileiros, o drama biográfico "Justino: Nos Bastidores do Reino" acompanha a vida do ex-pastor neopentecostal Mário Justino (vivido por Christian Malheiros), entre o começo dos anos 1980 e meados dos anos 1990, partindo da periferia do Rio de Janeiro e percorrendo capitais brasileiras.
O filme inspira-se no livro autobiográfico 'Nos Bastidores do Reino' para estabelecer um panorama urgente sobre a manipulação da fé, evitando apontar o dedo para os fiéis. Belmonte expõe os interiores da igreja como a consolidação de um império, liderado pelo Pastor Azevedo (Caio Blat), figura fictícia de paralelos evidentes com a realidade. Os letreiros na tela localizam o espectador nas diferentes cidades pelas quais a narrativa transita, demonstrando o poder e o carisma que o protagonista teve dentro desse universo.
Entre os muitos acertos de "Justino: Nos Bastidores do Reino", talvez o mais admirável seja a franqueza com que Belmonte trabalha os extremos da história real. Mesmo com as elipses temporais e marcações de montagem que fazem a narrativa avançar, esta está longe de ser uma cinebiografia higienizada e previsível. Ajuda o fato de Mário Justino ser, em si, uma figura altamente complexa: um homem negro e LGBQIAPN+, que tem evidentemente uma fé fervorosa e verdadeira, mas que se aproveita dela para diferentes proveitos próprios.
A partir desses bastidores do título, o filme destila um esquema de máfia não muito diferente daqueles tão vistos na obra de Martin Scorsese, por exemplo. O roteiro, também escrito por Belmonte, correlaciona as tensões religiosas que estão em jogo no período histórico com o presente momento do Brasil sem recorrer a didatismos, o que o coloca automaticamente acima de diversos longas contemporâneos sobre o tema.
"Justino: Nos Bastidores do Reino" não escapa a algumas obviedades. A forma ostensiva com que utiliza a trilha sonora, por exemplo, para marcar blocos da história dilui um pouco da organicidade dramática que as atuações (todas excelentes) imprimem.
Christian Malheiros e Larissa Nunes, que interpreta sua esposa, tem pelo menos uma grande cena juntos, enquanto Caio Blat se destaca como o líder religioso mercador da fé que parece mais ameaçador quanto mais calma demonstra.
*O repórter viajou a convite do Festival de Gramado