Caso Ângela Diniz retorna ao Festival de Gramado de forma diferente com 'Pele de Rinoceronte'
Protagonizado por Débora Falabella e Naruna Costa, filme lançado na competição de longas do 54º Festival de Cinema de Gramado mescla duas protagonistas, uma jornalista e uma advogada, para denunciar a perpetuação do feminicídio
Uma nova abordagem a partir de um caso célebre da crônica policial brasileira ganhou boas discussões na competição de longas brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado. Primeiro longa dirigido por Marcelo Ludwig Maia — experiente produtor de obras célebres do cinema pernambucano, como "Amarelo Manga" e "Febre do Rato", de Cláudio Assis —, "Pele de Rinoceronte" ficcionaliza, debate e reencena a repercussão do brutal assassinato da socialite Ângela Diniz, ocorrido em 1976. O assunto foi tema de "Ângela", filme com Isis Valverde que foi exibido na mesma mostra competitiva em 2023.
O foco, desta vez, fica entre a cobertura jornalística e a preparação dos advogados de acusação. Débora Falabella vive a repórter Helena, que tenta desvendar as motivações do crime e, no processo, passa também por transformações pessoais. Em paralelo, uma advogada, interpretada por Naruna Costa, ensaia com seu marido (Irandhir Santos) a sustentação oral que fará no tribunal. Há ainda uma terceira camada com breves flashbacks da própria Ângela (papel de Camila Lucciola) em seus últimos momentos na convivência com seu algoz Raul Fernando (Alex Nader).
O título do mais novo filme sobre o caso Ângela Diniz tem uma origem curiosa: enquanto estava no Recife para um dos lançamentos de "A Erva do Rato", o diretor Marcello Maia ouviu do lendário cineasta Júlio Bressane, diretor daquele longa, um poema do paraibano Augusto dos Anjos que fazia alusão à "pele do rinoceronte" em um dos versos para descrever uma trajetória de sofrimento.
Em entrevista ao Diario diretamente do Festival de Gramado, ele revela como esse momento marcou sua vida. "Estávamos diante de uma das pontes icônicas da cidade quando Bressane me surpreendeu com esse poema. Primeiro tomei um susto e depois fiquei pensando naquele verso incrível, que me remeteu ao sofrimento prolongado e perpetuado das mulheres brasileiras vítimas de todo tipo de violência", relembra Marcelo. "Desde esse dia, eu sabia que não haveria uma forma melhor de traduzir o meu sentimento do que essa. Assim como toda o filme, o título vem de um lugar muito intensamente pessoal para mim. É uma homenagem a todas as mulheres da minha vida", acrescenta.
O roteiro, assinado por Josefina Trotta, tenta mesclar as duas protagonistas para consolidar sobretudo um arco de transformação da jornalista interpretada por Débora Falabella, que, inicialmente, parece normalizar e reproduzir julgamentos que logo passa a questionar. À medida em que adquire contato com as informações sobre a mulher assassinada, Helena tem seu arco transformado em uma espécie de suspense psicológico. O diretor e a roteirista investem em uma fantasmagoria que desperta a repórter para violências que ela mesma sofre, como destaca a própria atriz durante a entrevista ao Diario.
"São duas personagens muito diferentes. Uma delas conduz tudo de forma muito mais verbal, enquanto outra, que é a minha, a Helena, guia a narrativa por meio do movimento. As próprias sensações dela vão moldando o tom da história, porque ela começa o filme em um lugar bastante diferente", explica Falabella. "E é interessante como, nesse processo, eu mesma passei a repensar várias violências que sofri na vida e que não identificava dessa forma. Essa sensibilização é essencial para mim, e a condução do Marcelo foi delicada o suficiente para que nós nos sentíssemos seguras para encenar tudo isso", completa.
Já Naruna Costa fica encarregada do trecho mais verborrágico e didático de "Pele de Rinoceronte", que se lança em uma arriscada teatralidade para denunciar e detalhar o absurdo do crime cometido contra Ângela. A atriz defende que o texto, aplaudido em cena aberta durante a estreia em Gramado, foi feito para honrar as mulheres. "A direção foi sempre muito disposta a nos ouvir, acolher e debater. A cena do discurso foi um texto feito em homenagem a tantas histórias femininas que foram apagadas. Ter aquela sala cheia dessa equipe me fez olhar no olho de cada uma das mulheres presentes e dedicar aquilo a elas de modo profundamente emocional. Pude traduzir a urgência desse tema com absoluta verdade", enaltece a atriz.
*O repórter viajou a convite do Festival de Gramado